Home

FABULARAMA, lançada em maio de 2014.

Ambientada nos campos de Cantare, (Águas de Lindoia e região) é uma obra que tem como motivo os mitos e lendas de nosso folclore. São narrativas formadas em solo brasileiro pelo encontro das culturas: Tupi-Guarani, Europeia e a Africana. Enredando os motivos das estórias, topamos vocábulos como: cunhã, quarar, mboiguaçu (tradição Tupi-Guarani), depois, encontramos: Griô, ódara, atotô, Obaluaê, Orixa, Exu (tradição Africana), na tradição Europeia temos: Deus, Santos, pecado, sagrado, maldição, castigos, demônios, rezas, Eros, Carmina, Píramo, Tisbe.

Busque neste blog  alguns dos trabalhos do autor em Páginas ou Categorias:  Contos, Fábula, Crônicas, Causos, Versos, Dinâmica para sala de aula;

 

Causo do mês, vai ouvindo:

Crônica do Tanque: águas que descem varrendo tudo

José Alaercio Zamuner

As águas do Tanque descem ribeirão abaixo, vêm lá dos Ferreirinhas, passam no Zé Baleste, seguem descendo, vem uma curva na casa do Zé Messias, tem a casa da curandeira Malvina, espremem-se no Rico Segundo, e no sítio do vô Messias e vó Isa formam um grande Tanque, que represadas, lutam muito e choram cachoeira noite inteira; depois, escapam, seguem pelo ’Sunto Volpini, além casaiada, embocam na cidade Monte Sião, onde alimentam de moradia a sapaiada da Rua do Sapo. Sempre as Águas do Tanque. São tão antigas, sabem de toda história de suas margens, observam todos. Elas vão longe, rasgam a cidade e ganham o Rio das Pedras…

Muitas histórias nascem nestas águas represadas do Tanque. De criança, elas espantavam a gente. Quando na ocasião de visita à vó Isa, quase que ninguém dormia, de tanto ouvir seus choros de águas represadas noite inteirinha jorrando queda, mais as batidas do monjolo que vó Isa cuidava… (era assim, a vó descia o gramado, o casarão ficava no topo da subida, descia com cesto cheio de milho, depois subia com cesto cheio farinha.) Assim quase dia todo. Depois, tricotear para os filhos mascatear em Monte Sião e roças. O barulho daquelas águas nunca parava, mas parece que ao anoitecer elas roncavam mais ainda e subiam em respingos escapando do Tanque, das margens, e vinham fuçar na gente, nas agulhas de tricô da vó Isa. A vó sabia e escondia tudo, elas queriam tagarelar com ela, até saber dos pontos, seus modos e desenhos, agilidade no dedos; como tece tão rápido assim?…, para depois saírem levando correndo lá pra baixo, pro fundo do Tanque, os segredos do tricô que a vó fazia dias e noites e noites para os filhos mascatearem…. Xxiiiuu!…, filhos, elas querem saber de tudo, espalhar pra todos os lugares coisas que aprendi lá longe na Vêneto da minha Itália!

Chuuááá!…

Xxiiiuuu!… Dava muito medo aquelas águas roncando chuááá noite inteira, nossa vó acudia nosso medo dizendo que aquele ronco era só com ela, por causa das agulhas, de suas mãos, de suas peças…

Escute só, conto que um dia aquelas águas represadas no tanque, a gente estava dormindo, a vó tricoteando sob uma luzica de nada, de repente, vieram subindo pasto acima, destruíram o monjolo, a gamela de milho que fazia farinha, a cerca do gado, afogaram todos os porcos do vô Messias, dobraram pra casa do tio Zé, onde o rio fazia grande curva, as águas passaram reto, deram no baldrame da casa com a força de lavar toda a terra, a casa pendeu, trincou. O casebre da benzedeira Malvina foi com as águas descendo (nunca mais ninguém ouviu falar da benzedeira Malvina), a pinguela para as terras do Rico Segundo sumiu. Chegando na casa da minha vó Isa, arrombaram as portas, entraram e foram fuçando por dentro, quarto por quarto, cataram todas as agulhas, todos os modelos, as peças de tricô que a vó fez, depois galoparam de volta pasto abaixo até o Tanque na força de estourar suas comportas arrasando a calha do riozinho, suas margens, dobrando árvores, danificando as casas, as ruas, mataram, afogados, todos os sapos da rua do Sapo, quebraram todas as charretes, levando os cavalos para não sei onde, sumiram com todas as pedras do Rio das Pedras…

E por onde passavam, destruíam o que havia de antes e iam espalhando no lugar as agulhas e peças de tricô de minha vó… O sítio do Messias Velho acabou naquele dia de noite súbita, ficou mudo, em sua parceria, todos os sítios vizinhos e roças e casas antigas perderam a voz.

Isso tudo foi num dia que amanheceu bem escuro, nuvens negras foram subindo parece que das barrocas do Jabuticabal, do Barreiro, do Morro Pelado, subiram, fecharam tudo por cima, deu no que deu. Quando tudo clareou, restou um cenário de só agulhas e peças de tricô espalhadas por toda parte, em meio a dias eletrizantes andando apressados pra frente, indo lá longe, emaranhados em led numa cidade já sem o Mercado Municipal, a Rua do Sapo, a máquina de café, sem o tio Tonho Messias trazendo leite para os laticínios, sem tropas nem tropeiros, nada mais, um museu foi erguido para abrigar todas essas vozes e imagens de antes da noite súbita, antes do estouro das Águas do Tanque, e quase naves espaciais descem pingando voos intermitentes sobre as casas, além ainda, qualquer um podendo ver muito bem algum alazão carbono preto trafegando pelas ruas da cidade; e as árvores…, as árvores, quando chega o inverno, sentem muito frio, pedem agasalhos, e logo estão todas vestidas em peças de tricô.

’Tru dia mesmo, neste junho, andando na praça, percebi que uma árvore trajava uma peça, que a reconheci, era uma das que as águas do Tanque arrancaram da casa de minha vó.

– A bença, vó Isa!

33 Respostas

  1. Analisando a obra de Jose Alaercio Zamuner, podemos observar que o autor recebeu uma grande influência de suas origens na sua trajetória literária. O apego a terra, os personagens do campo, suas vivências e costumes, a linguagem regionalista e o ambiente que criam todo o clima mágico na leitura de seus livros. Juntou o dom criativo do autor com a inspiraçao de sua vida no campo para formar o escritor talentoso que temos hoje.

  2. O que posso dizer de Jose Alaercio Zamuner é que ele é um grande contador e inventor de causos, mestre em costurar e remendar com as palavras. Sua sintaxe é única, combinando o falar de sua gente do povo com seu repertório erudito, que vem dos gregos, passa pelos trovadores medievais, empresta dos cronistas viajantes, do drama de Shakespeare, da literatura de cordel, evoca a prosa gostosa do Graciliano Ramos de Alexandre e outros heróis e ecoa ritmos do sertão de João Guimarães Rosa . Seus textos são um encontro entre o cantar e o contar (que, para ele, devem ser a mesma coisa). As narrativas formam uma trama quase líquida, correnteza que nos leva, quase sem querer, a lugares de memória e imaginação, de pura verdade e maravilha. Seu ato de escrever semelha-se a criar mundos, mais velhos que novos. E nós, leitores, ficamos sempre esperando, ansiosos, por suas novas estórias.

    • Que ótimo, Isabel. Enredar estórias e ter ao redor leitores
      que possam ouvir nossos enredos é tão vital quanto um diálogo corriqueiro. Principalmente quando se trata de uma
      leitora experiente, com conhecimento como você.
      Obrigado.
      Abraços.

  3. Olá, Alaércio! Meu caro mestre, vim assim de mansinho , de rabo de ôio, dá uma espiada nesta casa. E num é que me deixou vidrado. Deixo um abraço e uns parabéns. Amei os versos de Flamboyant.
    Assim que tiver mais tempo e estiver definitivamnte plugado, passo a acompanhar este blogue.
    Tudo de bom!

  4. Nessas terras de Cantare, onde canta o sabiá, onde a farra é dançar, onde o berço é um entremeio de roça e cidade, com pirão de galinha, com bolo de fubá, mandioca assada, e quintal vasto a capinar, nessas terras bem do alto, essa serra campineira peneirada de nuvens altas, ornamentada de arrebol, onde o sol se esconde longe, onde o saci pulou a cerca, onde a ventania assobia, onde a gente é proseadeira, onde se inventa história, onde se pode confiar que de tarde se apresenta, com jeito de Pedro Malasartes, e a velha de cachimbo, desinibida e serena, nessa terra de Cantare não se cutuca onça com vara curta nem se infringe a lei vírgem da mata afora…

    Já está linkado lá no Tecer Palavras…

    Abraços.

    • Olá, Márcio, como vai?
      É isso mesmo. Em Cantare há um demasiado humano:quase sem vestes, quase se tornando. O viver e morrer obedecem uma lei universal: a real e a transcendental das lendas e estórias. E tudo é tão pertinho.
      Abraços.

  5. Alá! Que coisa boa você ter criado este espaço virtual para divulgação do seu trabalho. Vou aproveitar bastante! Sucesso!!

  6. Olá, Alaércio…
    Depois do vinho deste domingo e depois de degustar suas estórias, só me resta desejar a você uma boa semana! “Let me take you down…”
    abraço.

  7. Alaercio, parabenizo-o pela conquista da 2ª edição do livro “Cantare Estórias”, escolhido no Projeto Apoio ao Saber, do governo do estado de São Paulo.
    Os alunos do 2º grau do estado de São Paulo serão contemplados com o livro Cantare Estórias com o qual poderão desfrutar de várias estórias da cultura popular de São Paulo e Minas Gerais.
    Parabéns!

  8. Tio Zezinho
    Tio Zezinho que não é Tio, mas uma vez Tio na terra dos Francos Cantare, sempre Tio.
    Acabei de ler o livro ontem a noite, Amei.
    Lembrar das estórias dos Francos Cantare e redondezas, fez lembrar como minha infância foi boa e sem maldades, bem diferente dos dias de hoje, infelizmente.
    Lembrar do Chã, foi Maravilhoso. Memória de um sorriso ingênuo e bondade suprema.
    E o Seu Zico? Nossa quanta catraca de bicicleta ele arrumou pra mim. Eu tinha especialização, mestrado e doutorado, antes mesmo de saber o significado desses títulos em dar pau na catraca de bicicleta.
    Dizer que gostei , nem precisa, Amei.
    Escrever é um dom, presente de Deus.
    Continue compartilhando esse dom com a gente.
    Parabéns.
    Beijo
    Filó

    • Oi, Filomena, leitora generosa!
      Que seria de um escritor sem um leitor?
      Obrigado pelas observações.
      É isso, o Cantare está dentro de todos nós. Depois que crescemos, fica esse canto,que pode ser estórias, sons de roda de bicicleta, assobios (lembra como o pai assobiava?), estórias do seu Toninho…
      Que bom que o meu Cantare pertence à construção de sua memória.
      Abraços.

      • Tio Zezinho
        Meu Pai esta lendo o livro. No tempo dele. Mas é muito legal. Ele vem compartilhar o que lembra.
        Ontem mesmo, cheguei na casa dele, ele estava com a Tribuna para me mostrar, que você irá ao México, todo contente pelo seu sucesso.
        Parabéns mais uma vez.

      • Fico feliz que o nosso querido “Seu Toninho” está gostando e envolvido com o nosso Cantare.
        Obrigado pelo apoio. Apresentei o nosso Cantare Estórias em vários lugares da Cidade do México: faculdades e centros culturais.
        Tenho fotos e gravações. Mando o endereço. Foi muito bom.
        Abraços.

  9. Adorei a leitura ,abraços

  10. Cantare Estórias nos remete a um momento único. Sentar no alpendre da casa, lá no sítio, ou na cidade, numa calçada qualquer, ou num bar é sair do chão onde estão pisando os pés naquele momento e flutuar mundo além.

    Assim como o canto dos pássaros, felizes os ouvidos abertos para as Estórias da Terra de Cantare.

    • Olá, Adenildo, que ótimo ter leitores como você!
      É, Cantare traz uma linguagem particular, atmosfera dos contos de fadas, para
      crianças e adultos.
      Felizes aqueles que podem entrar no universo das fábulas, quaisquer delas.
      Abraços

  11. Alterar e-mail para alaercio@uol.com.br

  12. Bom dia! Parabéns pelo belo trabalho!
    Venha fazer parte do “Grupo ZAMUNER”, no Facebook.
    Um abraço.

  13. Olá,sou a Nina filha da Leontina.Aprecio muito seu trabalho você escreve muito bem.Não sabia que você era escritor.
    Meus parabéns.
    Um Grande abraço.

  14. Cada vez que me deito e leio algumas páginas de Cantare estórias, sinto o cheiro do mato molhado e ouço o grilo cantar, assim como outrora eu ouvia no silêncio de minha casinha em terras mineiras de Monte Santo!

    • Olá, Joselito, como vai?
      É um imenso prazer saber que nas linhas de Cantare você percebe o canto da natureza.
      E seus trabalhos, como estão?
      Abraços.

      • Estou dando aulas no Estado, Mestre, pulando de escola em escola, já que não sou efetivo! Mas graças a Deus está gostoso lecionar, sobretudo aos alunos do Ensino Médio! Abraços e saiba que seu livro é minha leitura obrigatória na cabeceira de minha cama, rs!

  15. Acompanho seus trabalhos, gosto muito. É bom ver uma crônica envolvendo um evento como este da Copa do Mundo e nosso Folclore. Manda mais.
    Parabéns!

  16. Olá, querido professor e amigo. Foi uma grande alegria descobrir o teu website. Sempre admirei a tua sensibilidade artística e a tua transparência enquanto pessoa. Parabéns! pelas tuas realizações passadas, presentes e futuras. Um abração do seu amigo,

    Dorival Pimenta

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.