Vozes de Cantare

Cantare Estórias em Sala de Aula

Cantare Estórias em sala de aula

Séries trabalhadas: fundamental 1
Observação. Cada seguimento educacional deve ter uma atividade adequada a ela.
Atividade: Narração, audição, dramatização e interpretação de estórias.
Objetivo: Incentivo à leitura.
Texto sugerido para dinâmica: Nos Tempos em que Sol Morava na Terra.
Fontes: para esta e outras estórias da obra:
ZAMUNER, José Alaercio. Cantare Estórias. São Paulo, Edições Inteligentes, 2008.

–––––––, https://alaerciozamuner.wordpress.com/(Este texto está locado em Fábulas de Cantare.
Advertência:
Seguindo a proposta pedagógica destas páginas virtuais, publicamos algumas experiências realizadas em sala de aula. Para esta dinâmica, a sugestão é trabalhar com o conto Nos Tempos em que Sol Morava na Terra. Uma estória adaptada da tradição oral africana que traz características do conto maravilhoso. Ver sobre o assunto em referências bibliográficas.
Essas experiências têm como princípio, em primeiro plano, a narrativa oral, como uma contação de estórias, depois seguem algumas atividades com o objetivo de estabelecer um diálogo, de maneira informal, explorando o enredo do conto e suas as relações entre disciplinas nele presentes. A proposta é trabalhar com um texto literário de forma lúdica e interativa, envolvendo alunos no enredo da estória. Lembrando que esta experiência deve ser lúdica, interativa e nunca teórica e burocrática. Mas para as séries com mais experiência de leitura, vale buscar interpretações maiores, usando os recursos da teoria literária, descritos abaixo..
Motivação:
Ciente do aspecto do conto maravilhoso, o professor pode iniciar esta dinâmica conversando com os alunos sobre esse tipo de narrativa, presente nos livros didáticos, portanto, no dia-a-dia da escola, a saber: a narrativa do conto de fadas, do mundo do Era uma vez… muito comum nas estórias das comunidades iletradas, primitivas, dos causos sertanejos, denominada também de conto da carochinha. É uma estória que coloca o ouvinte distante do seu mundo real, com leis diferentes para os fenômenos da natureza, como no tempo em que os animais e as coisas falavam e tinham sentimentos humanos. Por este motivo essa estória pertence ao mundo do mito, da formação das coisas, do universo. Este deve ser um bate papo interativo, conduzido pelo professor, mas buscando e mediando as respostas dos alunos.
Dinâmica:
Esta prática tem como objetivo dar a um texto escrito o tom de uma narrativa oral, caso seja leitura, preservar e incentivar os recursos da fala, presentes no texto, com leitura dramática, interpretativa. É uma dinâmica de contação de estórias, portanto, ouvir a voz da estória, do narrador é importantíssimo.
Possível dinâmica para o conto Nos Tempos em que Sol Morava na Terra.
Narrador: Professor.
1) Preparar os alunos para serem os personagens: Água, Sol e família.
2) Distribuir os papéis conforme as falas:
Texto. As falas:
Água: “Posso entrar?”
Sol: “Pode!”
Águas: “xxóó: agradecida…”
3) Ao final da narrativa.
Texto:
“Foi nesta vez que Sol se viu num mundo de só espaço solto:”
Ação dos alunos:
Sol (um aluno) no centro do universo (sala). (Só e sem família).
Texto:
“Sozinho, Sol começou a chamá-los: Selene!… Júpiter!…”
Sol (aluno) puxa os planetas (outros alunos) para perto de si. Forma um possível sistema solar. (Forma sua família)
4) Por fim, fazem movimentos sugeridos pelo texto.
Texto:
“Vai senão quando Sol, inteligente e gerador de vivas ideias, do seu centro, com o indicador em movimento rotativo, começou a girar…”
Neste ponto os alunos montam o movimento de translação dos planetas. (refere-se, também, à inter-relação social entre os membros de uma família).

Interdisciplinaridade:
Neste momento o professor poderá fazer um diálogo com os alunos sobre o texto. Levantar, num diálogo com os alunos, algumas questões que marcam a relação entre as disciplinas. (Aqui deve prevalecer a maturidade de cada sala. As sugestões apontadas são amplas, que devem ser adequadas a cada série.)

As disciplinas e suas implicações. Alguns apontamentos.

1) Língua Portuguesa: padrão culto e variantes populares.
Elementos linguísticos expressivos da língua oral.
Onomatopeia:
som de água: “xxóóó!…”.
som de fogo queimando objetos: “xxxiiii!,
Recursos da lírica na narrativa:
“no que o telhado foi alagado”: rima interna em ado.
2) Questões Literárias. Gênero narrativo, contos de fada, conto fabuloso: “Naquele tempo de experimento, tudo começo, Sol e família moravam na terra..”.
Figura de linguagem: prosopopéia, falas do Sol: “E Sol, abrindo seu portal, responde radiante. – Pode!…”
Alegoria: sistema solar representado organização familiar: “E se foram, pai Sol, mãe Lua ( Selene) e filhos todos, agarradinhos aos dois, como sempre existiam.”
Cantigas populares: “curimbatá, lambari mandou dizer que a piaba `ta doente com saudade de você”.
Provérbios: “…jacaré – nadando de costas porque tinha também piranha”. Referência à máxima: em lagoa que tem piranha, jacaré nada de costas.
Mitos e lendas: Sereias: antiguidade grega, Iara, cultura tupi.
3) Questões sociais, interculturais. Narrativa oral de origem africana. Narrativa popular da tradição oral, das comunidades iletradas, sertanejas, comuns em solo brasileiro.
Narrativa culta: O próprio texto editado.
Narrativa popular: narrativa usando recursos da fala, dos contos da tradição oral.
4) Ciência e Geografia. Formação do universo entre comunidades primitivas. Estudos sobre o sistema solar em nosso sistema educacional: “… girar, girar, rodando pião de impulsionar sua família numa ciranda translacionada de muito alegre elipse, rodopiando a sua volta, …”
5) Estudos sociais. Formação do sistema solar e do modelo familiar em nossa sociedade.
Transversalidade: Pluridade cultural, temas sociais, locais e meio ambiente.

Pesquisa de campo: diálogo entre escola e vida social.
Para fazer um diálogo entre escola, suas disciplinas e a vida comunitária dos alunos, a sugestão é uma pesquisa sobre o assunto desta dinâmica.
Possibilidades:
1) Trazer uma estória que ouviu de um parente ou vizinho que tenha o mesmo tipo de narrativa da estória trabalhada: fábula, conto maravilhoso.
Para esta tarefa, pede-se que colete:
Fonte: (de onde tirou a estória.)
Qual livro?
Relato oral. Quem contou, esse que contou, de quem ouviu? ( É importante saber o percurso da estória. Avó, tio, tia, amigo, amiga…)
Origem da estória. Brasil, mundo distante, castelos, matos, campos, roças, mundo presente, cidade…
Tempo. Qual é o tempo, quando aconteceu, é dos tempos fabulosos, das fadas carochas, tem relação com a vida moderna. É importante saber que há muitas estórias orais do tempo presente, correntes na boca dos alunos.
Resultados:
O autor desta página terá o um grande prazer em receber avaliações e sugestões.
Bom divertimento!

Referências Bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura Oral no Brasil. Belo Horizonte, Itatiaia, 1984
ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. Trad. Pola Civelli. São Paulo, Perspectiva, 1994.
JOLLES, André. Formas Simples. Trad. Álvaro Cabral. São Paulo, Cultrix, 1976.
MARTINS, Nilce Sant`Anana. Introdução à estilística. São Paulo, Queiroz, 1997.

SILVA, Fernando Correia da. ( Seleção e prefácio) Maravilhas do Conto Africano. São Paulo, Cultrix, 1964.
TAVARES, Hénio. Teoria Literária. Belo Horizonte, Itatiaia, 1974.
TZVETAN Todorov. As Estruturas Narrativas. São Paulo, Perspectiva, 1979.
ZAMUNER, José Alaercio. Cantare Estórias. São Paulo, Edições Inteligentes, 2008.
___. “Tradição Oral e Literatura Erudita: a recuperação do Narrador” In: Ficções: Leitores e Leituras (org. Bosi, Viviana e outros). São Paulo, Ateliê, 2001.
___. Sertão Flamboyant. São Paulo, Lábaron, 1996. Editorial, 2001.
–––. https://alaerciozamuner.wordpress.com/

Uma Caçada de Onça

Os bichos mais feros e mais danosos
que ha na terra são tigres, e estes animaes
são delles tamanhos como bezerros, (…)
são tam feros e forçosos que huma mão
que lanção a huma vitella ou novilho
lhe fazem botar os miolos fóra e
levão-no arrasto pera o mato. (…)
(Pero de Magalhães Gandavo)

Sou filho de tropeiro, cresci nestas roças Cantare, pareado com meu pai, bardeando café dos altos dos morros, Sítio Barrocão do Barreiro para as baixadas estradas do Porto. Lugares de alimárias perigosas. Mas não me assustavam não, porque meu pai era também, além de tropeiro, caçador de onça e fantasiado nas estórias. E não recusava um só chamado de um sitiante medroso… Sempre seguindo ensinamentos, herdei ambas as destrezas…
Depois de crescido, vim pra cidade. Hoje tenho uma casinha naquelas terras de antigamente. E não é que ’tro dia ’tava lá de papo pro ar, bebendo uma pinga com o Cadan, escutando Tião Carreiro e Pardinho cantando assim:
Quem tem mulher que namora
Quem tem burro empacador
Quem tem a roça no mato
Me chame, que jeito eu dou,

me vem um sitiante, da gente do Ramalho Velho, lá da Mata Fria, pedindo socorro causa de uma onça medonha que ainda insistente rondava sua roça, matando galinha, cabrito, bezerro, com voz e mãos tam feros e forçosos que fazem botar miolos fora de minhas criações, e tar e coisa e coisa e tar seu Filho de tropeiro e destas terras de antigamente. Disse que não fazia mais isso, era outra época, que há muito não via o cheiro de uma tigre… Mas o caboclo pelejando, quase no choro… tenha amor por mulher e filhos de lá em casa encurralados. Pensei e repensei e ruminei tapeação: que hoje voga escola, ensinamento, e esses bichinhos todos se amansaram escolados com astúcia de cristão, sabe como é… brinquedo de circo… Fui ficando tomado, de coração cortado, e aqueles olhos de lágrimas em medo… – Já viu uma onça?…
Fui. Levei a taquari que tinha, lembrança de meu pai, e um bom naco de fumo, no caso de algum Caipora pidão. Filhos e mulher ficaram em casa… Volto logo!
Cheguei no tal sítio, beira mata fechada e virgem de copa redonda, folhas de palmos, chão-humos forrado de ramos; cipós que descem e sobem trânsito: acortinado, Mata-Paus em abraços apertados, suspiros dobrados de dor, moitas bambuzinhos forrando chão e samambaiaçu com bromélia brotando mel, já desde antigamente: Pau-Brasil… fruto frescor nos cheiros e nas sombras densas: um vento fresco vinha!… – você sabe por que que a mata é virgem? Alguém estrugiu feio mata dentro. Bando de saá guinchou perigo. Distribuí os cuidados… Fique fora da mata, só eu entro. O cheiro vem forte do meio, era das grandes… Talvez daquelas de Mato Grosso, ou ainda num pulo de antigamente!…
Entrei no passo a passo, só apalpando a folhagem seca forrando chão podre. Fui fazendo uns nós em cipós para entreter algum curupira, que me seguisse… – se diz: quando encontra um nó o ente-anhanga desenrola, desenrola e fica entretido… Um tronco-piúca: ybira-puera caído… orelha-de-diabo e orquídeas agarradas. Ia em gato-manha, invisível… Lado esquerdo, um pau Perobeira grosso, mas o cheiro vinha mesmo era de trás de um Jatobá… de mãos dadas com Caneleiras, Cambuís, Cedros, Gameleiras, Jequitibás, Jacarandás cirandeando façanhas: que lá se dá madeira em leis de astúcias saúdes que as Baúvas abusam furando as nuvens santas de Cantare para mais de cem metros… passo a passo, anestesiado nos olhos de rever tudo…
O cheiro iauaretê cada vez mais forte… é a tigre macho mesmo espreitando!… anestesiado… cuidado!…
Repente… pulou urro onça!… velhaca e esperta, foi de trás da Perobeira, que vi até a goela da bicha… Busquei a arma, liso e ligeiro!… mas a espingardinha ’tava ainda a tiracolo, e não dava mais para armar… Huum… insultos, insultos de granduras mui feros e dentes de sabre denunciavam meu fim… me vi acuado… Correr não era meu feitio, nem nunca foi… e nem dava! Só sei que quando a onça avançou mesmo, na fé e coragem e Pelo-Sinal, me preparei com valentia também… Ah!… no que ela abriu a bocarra, meti-lhe foi um dos meus braços pela garganta abaixo, fui buscar-lhe o rabo… e puxei e rodei a fera no ar uns bons minutos e soltei longe, umas dez braças… … … Tudo se aquietou… … … Quando escutei uns chororós de gatinho, vindo de trás da moita bambuzinho… fui ver o que era… Vi uma coisa vermelha, miúda, choramingando… Era a onça da caça!…, mas virada pelo avesso…, tanta força do meu golpe!.., que busquei de meu pai de antigamente… Calcule!…
Aí, fiquei tão tomado de coração cortado e sentido, que desvirei o gatinho e mandei de volta se embora pra de onde veio: Mato Grosso e além!…
…que eu vou fazer a retirada, pra outras destas demandas empreitadas…
Quem tem mulher que namora
Quem tem burro empacador
Quem tem a roça no mato
Me chame, que jeito eu dou

Eu tiro a roça do mato
Sua lavoura melhora
O burro empacador
Eu corto ele de espora
E a mulher namoradeira
Eu passo couro
E mando embora

Cantare Estórias e os PCNs: um estudo

A pluralidade cultural da obra Cantare Estórias

Indicação
Ensinos: Fundamental e Médio. Um estudo conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais.

Itens promovidos pela obra:
• Pluralidade cultural: valorização de culturas diferentes: letradas e iletradas, urbanas e rurais.
•Interdisciplinaridade: valorização das Ciências Naturais e Sociais: promoção de conhecimento de mitologia, da astronomia, de aspectos geográficos e fatos históricos.
•Recursos linguísticos da obra: valorização de efeitos estilísticos: usos de vocábulos de origem tupi, vocábulos arcaicos, recursos da lírica ao longo da narrativa, usos de recursos da língua oral no texto escrito, valorização da metalinguagem, valorização de jogos semânticos e neologismos.
•Cantigas populares: valorização de provérbios, parlendas, quadrinhas, cantiga de roda, aboios, desafios, jogos linguísticos (rimas rápidas) e romances em verso (gestas).
Diferentes gêneros:
• Narrativo: culto e sertanejo (causos)
• Lírico: poesia: culta e popular
Um recorte para ilustrar alguns recursos citados:
“Fui fazendo uns nós em cipós para entreter algum curupira, que me seguisse… – se diz: quando encontra um nó o ente-anhanga desenrola, desenrola e fica entretido… Um tronco-piúca: ybira-puera caído… orelha-de-diabo e orquídeas agarradas.”
(Uma Caçada de Onça, Cantare Estórias, pg
49)

Uma Outra Pescaria Qualquer

Domingo de tardezinha,
Eu estava mesmo à toa,
Convidei meus companheiros
Pra ir pescar na lagoa.
(Zé Carreiro – nas vozes de Tonico e Tinoco)


Era um dia de domingo qualquer com a tardezinha polindo a gente de tanto nutridos com tudo. Um cheiro de rio: água-taboa-capituva-canto-de-saracura sobe da baixada, de onde o rio se punha nos milênios dos anos, e passa esfregando em nossas narinas. O pai, de instante, disse:
Bam’ pescá?!…
Arrumamos nossos apetrechos. Tomamos a estrada, andamos uns duzentos metros, e descemos à beira rio. Paramos num poço de nome Água Mãe, ao pé de uma moita de bambu. O pai deu uma vara para mim, outra para o Tinho; uma ele armou com chumbada pesada para pegar bagre e outra com isca para traíra. Enrolou um cigarro e se pôs de cócoras… …e a tarde foi gastando o dia, o rio exalando seu cheiro de milênios: barulho-borbulho-morulho… redemoinho d’água; “treis poote, treis poote!!” das saracuras; o bem-te-vi que viu…“…que viii!…”; a rãzinha que pulava n’água… “tchuuumm!…” As varas estanques, nem sinal, nada de nada… Eram os peixes ouvindo algum tremido da terra?
De repente, uma delas enverga de acordo: “zuum!”, tocando a ponta n’água. Nosso pai se lança em posição: a mão direita pronta à espera do próximo sinal, que decerto viria… mais uma leve puxada… e o pescador, sábio de tudo, calmo, pronto… não se via nem se ouvia um pio… “…xxxxiiiiu!… –… … …espaço no tempo…
zzuuummm!…” …novamente mais uma conversa firme com o pescador, e o pescador ansioso por esta prosa… “tchup!…” chasqueia na resposta, para a resposta da fisgada na outra ponta… e a briga se dá: o peixe puxando pra lá, pescador puxando pra cá, – os meninos gritando de alegria… e nosso pai lutando…: o peixe, de forte, arrrraasta a margem do rio pra lá, o pescador, de forte, arrraasta pra cá… e vai e veem e veem e vai… – … … … …espaço neste tempo… que durou feito sombra de sassafrás…
Mas nosso pai era pescador de anos inteirados, de verdades e mentiras… deu seu golpe, certeiro… arrastou o peixe fora d’água: um cará deeeste tamanho!!… que abaixou a palmos a água do rio… e ele reluziu, reluziu no ar e bateu no chão…: puum! Ficou lá imóvel, sem pular, abrindo a boca um pouco como que querendo falar… Pronunciar o quê, que ele não falava… nem nunca falou!…

Bom!… Esta tarde gastou o dia até o fim, nenhum peixe mais: aquele seria o derradeiro peixe daquele rio. Enrolamos as varas. Jogamos a isca restante n’água. Metemos o cará numa fieira e tomamos o caminho de volta!… pela estrada, andando… sol tombando o horizonte, os meninos eufóricos pelo peixe de nunca se visto antes, daquele tamanho… andando pela estrada… os quatro… os quatro… Lá da curva do Sinéseo, rosnando alto, aponta uma máquina, dessas de abrir estrada, do tamanho desta casa… e vem!… e outr’ e outr’ e outra… encobrindo o mundo de poeira e “rrroonco!…” não se via mais nada: nem o pai nem o Pai os filhos e peixe e mato e dia. O mundo amarelou de poeira. Aí!… gritamos: “Paaai!…” Nosso pai gritou de volta, “Encoste no barraancoo!…”, “Tiinhoo!… onde cê ´táá?…”, “´Tô aquiii, paai!…”, “Ziinhoo, fique paraadooo!…”, “Paaai!…”, “Paaai, ´tô com meedooo!!!…”… …
–…
espasmo neste tempo, que foi quase de segundos.
Os três pescadores ficaram ali gritando, se socorrendo até a última máquina passar, e passadas, restou o pó encobrindo o mato, a estrada, as folhas pensas de espessas, o pó batendo em seus joelhos. E como que andando em searas de dunas, meio arrastando as pernas, nosso pai atravessou a estrada para ver o rio lá embaixo… “Cadêê o rio, filhooos??!!!…
Corremos para ver também. E ficamos ali parados, boquiabertos, amarelos, que nem aquele peixe…
e o rio indo longe…, um fio de barbante arrastado pelas máquinas…
(de Sertão Flamboyant, 1996 – Lábaron)

Túnel de Palha

Well, she ‘s walking through the clouds,
with a circus mind that ‘s running wild.
Butterflies and Zebras

and Moonbeans and fairy tales.
That ‘s all she ever thinks about…
Riding with the wind.
When I’m sad, she comes to me.
With a thousand smiles, she gives to me free.
It ‘s alright, she ‘s said it ‘s alright.
Take anything you want from me.

Anything.
Fly on little wing.

Yeah, yeah, yeah, little wing…
(Jimi Hendrix)

Vai escutando…

A estrada de poeira amarelenta qual e tal um rastro de serpente, urutu-dourado, rachava nosso vilarejo ao meio: casinhas à-toa com muito pouco de quase tudo ex­posto nos tijolos à vista lateral da paisagem em calmaria: sem agitação… (Nem de folhas?…). Não havia correria para nada – “Tudo que se pode fazer hoje, pode-se fazer ama­nhã” – Nosso pai dizia.

Essa estrada, cara de preguiçosa quando queria, deslizava pelo afora do mundo de meu Deus e chegava aos outros também… Seguia esticando o tempo com o uivo do seu cocão, carro de uma parelha só, puxando os ouvi­dos lá de longe, para longe, serpenteada, urutu-dourado, seu rastro, acenando sempre para nós num adeus mesclado de ambíguo. Nós, do barranco, querendo compreender essa linguagem: gostávamos disso, e hipnotizados, nosso olhar caía nesse rastro e seguia fazendo nosso corpo acompa­nhar esse ritmo, curvilíneo e pernicioso do urutu-dourado, seu Ginsberg.

Éramos colonos e tínhamos como paga uma pe­quena parte de terra para plantio e sustento.

A roça de todos os dias, nossa ou a do patrão, er­guia-se numa grande tenda em nossas retinas e meninas que transfiguravam a um circo nosso vai-e-vem de catar e rastelar café, carregar maços de arroz ao batedouro, tratar de criação, bater feijão…

A noite vinha do alto daquela serra, detrás do pé de manacá!…, trazendo aos terreiros as cirandas-cirandinhas, anel de vidro que se quebrou, lencinho na mão, bate pe­drinha, balança caixão: Tutu Marambá não venha mais cá: nunca mais!… urutu piador, o amor era pouco e se acabou… mais ninhos de mafagafos enfadonhos, imagine!… quem mafagafá direito bom mafagafador será…, diga lá!… e um sem fim de conversas, prosas de diz-que-diz­-que e tantos pratos de tigres em meio aos terreiros daqueles causos de assustadores homens canhamboras:

– “Diz-que o Toin’ Santo se pôs num terno, fincou pé nesta estrada, enfeitiçado. Na primeira parada, um sujeito rasgou seu paletó à navalha e roubou-lhe a carteira… Voltou a alisar o cabo do guatambu.”

– “Ota bicho traiçoeiro o urutu-dorado. Diz-que ‘tru dia `tava pi­ando lá na taboa da encruzilhada, chamando estas crianças. D’o’tra vez o dianho picou e deixou enfeitiçado o Jué Oraciela…”

– “Estradão é este, seu Ginsberg. Perigosa… mas enfeitiça a gente! Diz-que o único que tem domínio, segura a bicha no cabresto, sem medo, faz o que qué, é o Laz Guerm. Mas também, corre um disse me disse antigo que ele tem é parte, e pacto com o pé de pato se deu na encruzilhada da benzedeira Malvina. Já foi visto na cidade e na roça, na mesma horinha… ”

***

Fazia muito sol aqueles dias. O feijão da roça esta­va seco… Então começamos a arrancá-lo, encher as canga­lhas (A gente, as crianças, que brincava de bater nos arreios para o comando da tropa), trazer para o terreiro, secar… depois com alguns vizinhos, era um sábado, passamos o dia todo ma­lhando o feijão seco com varas verdes, verdes-moles: vuum, vuum… As palhas eram depositadas num canto do terrei­ro…

Ao fim desse dia de trabalho, já com a sombra da tardinha no terreiro, nosso pai catou uns paus, a palha do feijão e construiu um túnel de palha para nós, as crianças… e en­tramos e fechamos a portinha: as luzes internas giragiragirando multi-mil­coloridas e focos-estroboscópios acenderam estonteantes, e o túnel de palha subiu literário… abandonou as casinhas-à-toa de tijolos expostos, assenta­das no chão de Batinga, que se estendia volátil com o aé­reo do objeto voador, subiu, subiu, roçou nuvens, driblou asteróides, visitou estrelas… e baixou rente à terra e aportou no terreiro de D. Dalva, que nos serviu leite com chocola­te, croissant, mil-folhas,  marshmellow… Subiu novamente, na­vegou rumo à estrada amarelenta, baixou e entrou no seu serpenteio na velocidade extrema: a estrada indo lon­ge, serpenteando… …de repente, lá da distância das Bordas, das terras do Laz Guerm, esta estrada-amarelenta-urutu-dourado ergue sua cabeça-réptil-réptil e dobra para nós: vem, corpo chato, e penetra janela adentro, seu corpo todo, enrosca-se em nossa pele, de crianças, esfrega-se… a pele fria, lisa, viscosa; de seda. Põe-se face a face ante nós, as crianças, meninos-meninas… Solta sua língua bifurcada, sua fala aspi­rada: hhaaa!.., vem, hhaaa!…  vem!.., xxiiuu…, leve!…, hhaaa!…. lambe nosso rosto: vezes, inteiradas, en­rosca-se mais, por debaixo de nossas chitinhas, volve-envolve-afaga e aperta-nos: pele-quente-pele-fria-lisa…: de seda, e desce, faz­ caracol, pleno, no canto: seu guizo em riste: sissss!…

…Mas antes que ela vibrasse seu guizo por mais de vezes-e-vezes seguidas, nosso pai abriu a portinha de pa­lha e disse:

– Vem jantá, fios, que a minestra ‘tá pronta!…

…e no terreiro, seu Ginsberg, vinha um vento que uivava sua fala-sempre através das folhas de um flamboianzeiro…

(de Sertão Flamboyant, 1996 – Lábaron)

Redemoinho

“Moço, vai ouvindo…
Diz que pra tocar viola por parte,
fazendo o pacto com o diabo,
pra pontear a bicha daquele modo
atravessado, o senhor tem que fazer assim:”
(Paulo Freire – Receita de Pacto)

A homarada ’tava na porta da venda – bêbada!… – do Laz-Guerm, bebendo pinga com arruda na muita precisão de fechar o corpo, ano todo… bem no dia de Sexta-Feira-Maió!…
…De repente, forma-se um redemoinho no meio terreiro dos quadrantes: chapéus-galinhas-chapéus-cães-vadios-galinhas… uma narval!… esvoaçando inermes em contorcidos ventos zumbindantes… qual nem posso contar!… Vai o Brazudo, desabusado, pega uma peneira, em cruz, e joga bem no centro da visão circulante. O rodopio estancou tudo ao chão, o ar impregnou infestado com o cheiro do tar: enxofre-bode-grunhidos misturados a urros-vultos e patas espessas tremendo terreiro, bum, bum!… O terror tomou conta!… Só se via a peneira prendendo o visível-invisível do dito-cujo… cruz-credo!… a homência entorpecida…
…Mas não é que sai, de lá de dentro da venda, o menino do vendeiro, na carreirinha santa, levanta a peneira e solta o tar-tinhoso… E, retransformado em redemoinho, rodopiando, desinfetando o ar, foi-solto-simbora, zumbindando, cumprir tarefa, Cantare afora…
(de Cantare Estórias, 2008, ISBN 978-85-7615-226-2)