A Dança dos Tangarás

…Quem anda por estas roças, sobe o Morro Pelado pelas Sete Cachoeiras, vê-se muito bem, naquelas grotas, um passarinho estreme nas plumas e consoante canto de bailado mui gracioso…, mas guarda espanto, que até parecendo sabedoria de escola. Essa dança teatro se dá assim, cadenciada: grupo de uns sete passarinhos, com um Corifeu que fica no alto, e centro, os outros num redor circular, patamar mais abaixo. Aquele do centro solta chilreio chamando algazarra dos companheiros, que ouvem atentos, atentos… Quando o cantor mestre silencia, o corpo de baile inicia circo chil-chil-chilreando alegremente, sempre aos pares, em pares vivazes tril-tril-trilam, saltitando drama de galhos a ramos a galhos, vão assim cirandeando, cirandeando… e enchendo de viço a mata! Mais um pio do Corifeu: tri-ri-riiiiuu!… e volta-se o silêncio das duplas, que depois reiniciam novamente os mesmos passos bailados dos Tangarás, que são aves tão ricas de pluma azul negro, que brilha ao sol, com topetes amarelos ou vermelhos, tudo em cor vivo fogo.
Mas esses pássaros, assim cantam e bailam por causa de um castigo. De primeiro, eles não existiam nas florestas destes morros, foi de então, quando uma maldição muito ruim caiu sobre uma família. Um dia, eternos tempos atrás, numa Semana Santa, dias de penitência, como vocês sabem, uns moços, filhos do Chico Santo, lá da Assunção, subindo pelo morro do Cruzeiro, todos rompentes em muita só diversão de bailes e cantorias, pouca obediência, principal nas crenças, de nem nunca atender as recomendações do pai. E saíram procurar bailes; sabe que encontraram!… Conta o João Goulart que foi mesmo obra do dianho, que arrumou tal diversão de fandango e catira, lá pros morros do Brejal, terras do Edso Riso, bem numa Quinta-Feira-Santa! Mais do que sempre se sabe de ser essa Santa Semana que o diabo anda solto, pescando deslizes de desabusados. E passaram os moços do seu Chico Santo, desaforando crenças, no baile noite toda, dobrando pra madrugada de Sexta-Feira-Maió… Terminando só após os últimos cantos dos galos. E o que se sucedeu ao depois nem dá coragem de contar… Coisa triste, que só vendo!… Ao cabo de uma semana, cada filho pega a adoecer. Um por um amanhecendo bom e à tarde já desenvolvia doença feia: o primeiro foi de varicela; depois um outro foi de tifo; o mais novo morreu gemendo febre amarela, e assim até inteirar os sete filhos. A alta febre infernal tingia cada feição e cabelo de vermelho sangue pitanga, ou de um amarelo manga espada afiada e madura. Mas o caso não termina aí não… Assombroso é em que se tornava cada moço: na súbita hora dos tremores da morte com gritos horrendos, instantâneo repente se dava de, como em delírio vertigem, causa da enfermidade, se levantava, cada um; cabeça rubra de vermelha ou amarela e corpo todo de pele em penas brotantes num azul negro, e saía meio-gente-meio-pássaro terreiro, depois mato afora, sumido pelo desfiladeiro do Barreiro… De então, já se ouvia vendo chilreio dançante, tal-qual, nos redores de matas, deste passarinho que hoje chamamos de Tangará. Muitos dizem que estão esperando o perdão para assim retornarem à forma de gente novamente…
Sabe que corre estória diversa!… …que de tão sublime dança em cantos por estas matas, deverão ser sempre Tangará em Corpo de Baile, causa que na terra já tem muita gente, e sempre imitam tudo por puro prazer.
(de Cantare Estórias, 2008, ISBN 978-85-7615-226-2)

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