Túnel de Palha

Well, she ‘s walking through the clouds,
with a circus mind that ‘s running wild.
Butterflies and Zebras

and Moonbeans and fairy tales.
That ‘s all she ever thinks about…
Riding with the wind.
When I’m sad, she comes to me.
With a thousand smiles, she gives to me free.
It ‘s alright, she ‘s said it ‘s alright.
Take anything you want from me.

Anything.
Fly on little wing.

Yeah, yeah, yeah, little wing…
(Jimi Hendrix)

Vai escutando…

A estrada de poeira amarelenta qual e tal um rastro de serpente, urutu-dourado, rachava nosso vilarejo ao meio: casinhas à-toa com muito pouco de quase tudo ex­posto nos tijolos à vista lateral da paisagem em calmaria: sem agitação… (Nem de folhas?…). Não havia correria para nada – “Tudo que se pode fazer hoje, pode-se fazer ama­nhã” – Nosso pai dizia.

Essa estrada, cara de preguiçosa quando queria, deslizava pelo afora do mundo de meu Deus e chegava aos outros também… Seguia esticando o tempo com o uivo do seu cocão, carro de uma parelha só, puxando os ouvi­dos lá de longe, para longe, serpenteada, urutu-dourado, seu rastro, acenando sempre para nós num adeus mesclado de ambíguo. Nós, do barranco, querendo compreender essa linguagem: gostávamos disso, e hipnotizados, nosso olhar caía nesse rastro e seguia fazendo nosso corpo acompa­nhar esse ritmo, curvilíneo e pernicioso do urutu-dourado, seu Ginsberg.

Éramos colonos e tínhamos como paga uma pe­quena parte de terra para plantio e sustento.

A roça de todos os dias, nossa ou a do patrão, er­guia-se numa grande tenda em nossas retinas e meninas que transfiguravam a um circo nosso vai-e-vem de catar e rastelar café, carregar maços de arroz ao batedouro, tratar de criação, bater feijão…

A noite vinha do alto daquela serra, detrás do pé de manacá!…, trazendo aos terreiros as cirandas-cirandinhas, anel de vidro que se quebrou, lencinho na mão, bate pe­drinha, balança caixão: Tutu Marambá não venha mais cá: nunca mais!… urutu piador, o amor era pouco e se acabou… mais ninhos de mafagafos enfadonhos, imagine!… quem mafagafá direito bom mafagafador será…, diga lá!… e um sem fim de conversas, prosas de diz-que-diz­-que e tantos pratos de tigres em meio aos terreiros daqueles causos de assustadores homens canhamboras:

– “Diz-que o Toin’ Santo se pôs num terno, fincou pé nesta estrada, enfeitiçado. Na primeira parada, um sujeito rasgou seu paletó à navalha e roubou-lhe a carteira… Voltou a alisar o cabo do guatambu.”

– “Ota bicho traiçoeiro o urutu-dorado. Diz-que ‘tru dia `tava pi­ando lá na taboa da encruzilhada, chamando estas crianças. D’o’tra vez o dianho picou e deixou enfeitiçado o Jué Oraciela…”

– “Estradão é este, seu Ginsberg. Perigosa… mas enfeitiça a gente! Diz-que o único que tem domínio, segura a bicha no cabresto, sem medo, faz o que qué, é o Laz Guerm. Mas também, corre um disse me disse antigo que ele tem é parte, e pacto com o pé de pato se deu na encruzilhada da benzedeira Malvina. Já foi visto na cidade e na roça, na mesma horinha… ”

***

Fazia muito sol aqueles dias. O feijão da roça esta­va seco… Então começamos a arrancá-lo, encher as canga­lhas (A gente, as crianças, que brincava de bater nos arreios para o comando da tropa), trazer para o terreiro, secar… depois com alguns vizinhos, era um sábado, passamos o dia todo ma­lhando o feijão seco com varas verdes, verdes-moles: vuum, vuum… As palhas eram depositadas num canto do terrei­ro…

Ao fim desse dia de trabalho, já com a sombra da tardinha no terreiro, nosso pai catou uns paus, a palha do feijão e construiu um túnel de palha para nós, as crianças… e en­tramos e fechamos a portinha: as luzes internas giragiragirando multi-mil­coloridas e focos-estroboscópios acenderam estonteantes, e o túnel de palha subiu literário… abandonou as casinhas-à-toa de tijolos expostos, assenta­das no chão de Batinga, que se estendia volátil com o aé­reo do objeto voador, subiu, subiu, roçou nuvens, driblou asteróides, visitou estrelas… e baixou rente à terra e aportou no terreiro de D. Dalva, que nos serviu leite com chocola­te, croissant, mil-folhas,  marshmellow… Subiu novamente, na­vegou rumo à estrada amarelenta, baixou e entrou no seu serpenteio na velocidade extrema: a estrada indo lon­ge, serpenteando… …de repente, lá da distância das Bordas, das terras do Laz Guerm, esta estrada-amarelenta-urutu-dourado ergue sua cabeça-réptil-réptil e dobra para nós: vem, corpo chato, e penetra janela adentro, seu corpo todo, enrosca-se em nossa pele, de crianças, esfrega-se… a pele fria, lisa, viscosa; de seda. Põe-se face a face ante nós, as crianças, meninos-meninas… Solta sua língua bifurcada, sua fala aspi­rada: hhaaa!.., vem, hhaaa!…  vem!.., xxiiuu…, leve!…, hhaaa!…. lambe nosso rosto: vezes, inteiradas, en­rosca-se mais, por debaixo de nossas chitinhas, volve-envolve-afaga e aperta-nos: pele-quente-pele-fria-lisa…: de seda, e desce, faz­ caracol, pleno, no canto: seu guizo em riste: sissss!…

…Mas antes que ela vibrasse seu guizo por mais de vezes-e-vezes seguidas, nosso pai abriu a portinha de pa­lha e disse:

– Vem jantá, fios, que a minestra ‘tá pronta!…

…e no terreiro, seu Ginsberg, vinha um vento que uivava sua fala-sempre através das folhas de um flamboianzeiro…

(de Sertão Flamboyant, 1996 – Lábaron)

2 Respostas

  1. Ola, Jose é possivel resumir Cantares de Encantado de Estorias da pagina 103, porque não estou conseguindo resumir.

    adorei o livro
    aguardo

    • Olá, Mary, como vai?
      Obrigado pela leitura. Este é o conto central da obra.
      Um conto já traz um enredo resumido, é de sua natureza. Por isso tudo é muito justo, amarrado.
      Tente fazer uma opção pessoal nas escolhas do que retirar. Por exemplo, tirar os efeitos do Sol sobre
      as pessoas, não pode.
      Ao fazer, pode me mandar, vou ler com prazer.
      Em caso de outras dúvidas, pergunte.
      Bom trabalho.

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