Uma Outra Pescaria Qualquer

Domingo de tardezinha,
Eu estava mesmo à toa,
Convidei meus companheiros
Pra ir pescar na lagoa.
(Zé Carreiro – nas vozes de Tonico e Tinoco)


Era um dia de domingo qualquer com a tardezinha polindo a gente de tanto nutridos com tudo. Um cheiro de rio: água-taboa-capituva-canto-de-saracura sobe da baixada, de onde o rio se punha nos milênios dos anos, e passa esfregando em nossas narinas. O pai, de instante, disse:
Bam’ pescá?!…
Arrumamos nossos apetrechos. Tomamos a estrada, andamos uns duzentos metros, e descemos à beira rio. Paramos num poço de nome Água Mãe, ao pé de uma moita de bambu. O pai deu uma vara para mim, outra para o Tinho; uma ele armou com chumbada pesada para pegar bagre e outra com isca para traíra. Enrolou um cigarro e se pôs de cócoras… …e a tarde foi gastando o dia, o rio exalando seu cheiro de milênios: barulho-borbulho-morulho… redemoinho d’água; “treis poote, treis poote!!” das saracuras; o bem-te-vi que viu…“…que viii!…”; a rãzinha que pulava n’água… “tchuuumm!…” As varas estanques, nem sinal, nada de nada… Eram os peixes ouvindo algum tremido da terra?
De repente, uma delas enverga de acordo: “zuum!”, tocando a ponta n’água. Nosso pai se lança em posição: a mão direita pronta à espera do próximo sinal, que decerto viria… mais uma leve puxada… e o pescador, sábio de tudo, calmo, pronto… não se via nem se ouvia um pio… “…xxxxiiiiu!… –… … …espaço no tempo…
zzuuummm!…” …novamente mais uma conversa firme com o pescador, e o pescador ansioso por esta prosa… “tchup!…” chasqueia na resposta, para a resposta da fisgada na outra ponta… e a briga se dá: o peixe puxando pra lá, pescador puxando pra cá, – os meninos gritando de alegria… e nosso pai lutando…: o peixe, de forte, arrrraasta a margem do rio pra lá, o pescador, de forte, arrraasta pra cá… e vai e veem e veem e vai… – … … … …espaço neste tempo… que durou feito sombra de sassafrás…
Mas nosso pai era pescador de anos inteirados, de verdades e mentiras… deu seu golpe, certeiro… arrastou o peixe fora d’água: um cará deeeste tamanho!!… que abaixou a palmos a água do rio… e ele reluziu, reluziu no ar e bateu no chão…: puum! Ficou lá imóvel, sem pular, abrindo a boca um pouco como que querendo falar… Pronunciar o quê, que ele não falava… nem nunca falou!…

Bom!… Esta tarde gastou o dia até o fim, nenhum peixe mais: aquele seria o derradeiro peixe daquele rio. Enrolamos as varas. Jogamos a isca restante n’água. Metemos o cará numa fieira e tomamos o caminho de volta!… pela estrada, andando… sol tombando o horizonte, os meninos eufóricos pelo peixe de nunca se visto antes, daquele tamanho… andando pela estrada… os quatro… os quatro… Lá da curva do Sinéseo, rosnando alto, aponta uma máquina, dessas de abrir estrada, do tamanho desta casa… e vem!… e outr’ e outr’ e outra… encobrindo o mundo de poeira e “rrroonco!…” não se via mais nada: nem o pai nem o Pai os filhos e peixe e mato e dia. O mundo amarelou de poeira. Aí!… gritamos: “Paaai!…” Nosso pai gritou de volta, “Encoste no barraancoo!…”, “Tiinhoo!… onde cê ´táá?…”, “´Tô aquiii, paai!…”, “Ziinhoo, fique paraadooo!…”, “Paaai!…”, “Paaai, ´tô com meedooo!!!…”… …
–…
espasmo neste tempo, que foi quase de segundos.
Os três pescadores ficaram ali gritando, se socorrendo até a última máquina passar, e passadas, restou o pó encobrindo o mato, a estrada, as folhas pensas de espessas, o pó batendo em seus joelhos. E como que andando em searas de dunas, meio arrastando as pernas, nosso pai atravessou a estrada para ver o rio lá embaixo… “Cadêê o rio, filhooos??!!!…
Corremos para ver também. E ficamos ali parados, boquiabertos, amarelos, que nem aquele peixe…
e o rio indo longe…, um fio de barbante arrastado pelas máquinas…
(de Sertão Flamboyant, 1996 – Lábaron)

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