Uma Caçada de Onça

Os bichos mais feros e mais danosos
que ha na terra são tigres, e estes animaes
são delles tamanhos como bezerros, (…)
são tam feros e forçosos que huma mão
que lanção a huma vitella ou novilho
lhe fazem botar os miolos fóra e
levão-no arrasto pera o mato. (…)
(Pero de Magalhães Gandavo)

Sou filho de tropeiro, cresci nestas roças Cantare, pareado com meu pai, bardeando café dos altos dos morros, Sítio Barrocão do Barreiro para as baixadas estradas do Porto. Lugares de alimárias perigosas. Mas não me assustavam não, porque meu pai era também, além de tropeiro, caçador de onça e fantasiado nas estórias. E não recusava um só chamado de um sitiante medroso… Sempre seguindo ensinamentos, herdei ambas as destrezas…
Depois de crescido, vim pra cidade. Hoje tenho uma casinha naquelas terras de antigamente. E não é que ’tro dia ’tava lá de papo pro ar, bebendo uma pinga com o Cadan, escutando Tião Carreiro e Pardinho cantando assim:
Quem tem mulher que namora
Quem tem burro empacador
Quem tem a roça no mato
Me chame, que jeito eu dou,

me vem um sitiante, da gente do Ramalho Velho, lá da Mata Fria, pedindo socorro causa de uma onça medonha que ainda insistente rondava sua roça, matando galinha, cabrito, bezerro, com voz e mãos tam feros e forçosos que fazem botar miolos fora de minhas criações, e tar e coisa e coisa e tar seu Filho de tropeiro e destas terras de antigamente. Disse que não fazia mais isso, era outra época, que há muito não via o cheiro de uma tigre… Mas o caboclo pelejando, quase no choro… tenha amor por mulher e filhos de lá em casa encurralados. Pensei e repensei e ruminei tapeação: que hoje voga escola, ensinamento, e esses bichinhos todos se amansaram escolados com astúcia de cristão, sabe como é… brinquedo de circo… Fui ficando tomado, de coração cortado, e aqueles olhos de lágrimas em medo… – Já viu uma onça?…
Fui. Levei a taquari que tinha, lembrança de meu pai, e um bom naco de fumo, no caso de algum Caipora pidão. Filhos e mulher ficaram em casa… Volto logo!
Cheguei no tal sítio, beira mata fechada e virgem de copa redonda, folhas de palmos, chão-humos forrado de ramos; cipós que descem e sobem trânsito: acortinado, Mata-Paus em abraços apertados, suspiros dobrados de dor, moitas bambuzinhos forrando chão e samambaiaçu com bromélia brotando mel, já desde antigamente: Pau-Brasil… fruto frescor nos cheiros e nas sombras densas: um vento fresco vinha!… – você sabe por que que a mata é virgem? Alguém estrugiu feio mata dentro. Bando de saá guinchou perigo. Distribuí os cuidados… Fique fora da mata, só eu entro. O cheiro vem forte do meio, era das grandes… Talvez daquelas de Mato Grosso, ou ainda num pulo de antigamente!…
Entrei no passo a passo, só apalpando a folhagem seca forrando chão podre. Fui fazendo uns nós em cipós para entreter algum curupira, que me seguisse… – se diz: quando encontra um nó o ente-anhanga desenrola, desenrola e fica entretido… Um tronco-piúca: ybira-puera caído… orelha-de-diabo e orquídeas agarradas. Ia em gato-manha, invisível… Lado esquerdo, um pau Perobeira grosso, mas o cheiro vinha mesmo era de trás de um Jatobá… de mãos dadas com Caneleiras, Cambuís, Cedros, Gameleiras, Jequitibás, Jacarandás cirandeando façanhas: que lá se dá madeira em leis de astúcias saúdes que as Baúvas abusam furando as nuvens santas de Cantare para mais de cem metros… passo a passo, anestesiado nos olhos de rever tudo…
O cheiro iauaretê cada vez mais forte… é a tigre macho mesmo espreitando!… anestesiado… cuidado!…
Repente… pulou urro onça!… velhaca e esperta, foi de trás da Perobeira, que vi até a goela da bicha… Busquei a arma, liso e ligeiro!… mas a espingardinha ’tava ainda a tiracolo, e não dava mais para armar… Huum… insultos, insultos de granduras mui feros e dentes de sabre denunciavam meu fim… me vi acuado… Correr não era meu feitio, nem nunca foi… e nem dava! Só sei que quando a onça avançou mesmo, na fé e coragem e Pelo-Sinal, me preparei com valentia também… Ah!… no que ela abriu a bocarra, meti-lhe foi um dos meus braços pela garganta abaixo, fui buscar-lhe o rabo… e puxei e rodei a fera no ar uns bons minutos e soltei longe, umas dez braças… … … Tudo se aquietou… … … Quando escutei uns chororós de gatinho, vindo de trás da moita bambuzinho… fui ver o que era… Vi uma coisa vermelha, miúda, choramingando… Era a onça da caça!…, mas virada pelo avesso…, tanta força do meu golpe!.., que busquei de meu pai de antigamente… Calcule!…
Aí, fiquei tão tomado de coração cortado e sentido, que desvirei o gatinho e mandei de volta se embora pra de onde veio: Mato Grosso e além!…
…que eu vou fazer a retirada, pra outras destas demandas empreitadas…
Quem tem mulher que namora
Quem tem burro empacador
Quem tem a roça no mato
Me chame, que jeito eu dou

Eu tiro a roça do mato
Sua lavoura melhora
O burro empacador
Eu corto ele de espora
E a mulher namoradeira
Eu passo couro
E mando embora

Uma resposta

  1. Nessas terras de Cantare, onde canta o sabiá, onde a farra é dançar, onde o berço é um entremeio de roça e cidade, com pirão de galinha, com bolo de fubá, madioca assada, e quintal vasto a capinar, nessas terras bem do alto, essa serra campineira peneirada de nuvens altas, ornamentada de arrebol, onde o sol se esconde longe, onde o saci pulou a cerca, onde a ventania assobia, onde a gente é proseadeira, onde se inventa história, onde se pode confiar que de tarde se apresenta, com jeito de Pedro Malasartes, e a velha de cachimbo, desinibida e serena, nessa terra de Cantare não se cutuca onça com vara curta nem se infringe a lei vírgem da mata afora…

    Belo causo, Alá… Aqui me senti um tiquinho em casa, senti o cheiro do mato, das embaúbas e vi os carrapichos grudarem pelas arestas das minhas calças.

    Abraços.

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