Gira Mundo!

“A vida é como andar de bicicleta.

Para manter o equilíbrio você

deve continuar em movimento”

(Professou Albert Einstein)

 “chã-chã, chã-chã, chã-chã…”

(Canto do pássaro Chã-Chã no céu dos campos Cantare)

Tem muita coisama na terra, e vem tudo do céu… também tem da terra suspenso lá em cima, junto com nuvens: um cisco, um passarinho… mas tudo, tudo volteando que nem cartas de baralho no vento. Onde é o canto seguro do céu? Nem dá pra ficar nele parado… Pensando bem, nem neste chão aqui, que arrasta a gente tornado bicicleta figural: em rodas suspensas, que aí carece só, só andar, rodar, circular todos os cantos, se não cai…  “Eh!… Hoje tem festa. Lá nos Pontes. Depois, lá no Peroval… Vou que indo ansim me’mo!”, … ’cê vai girando os ciclos por este mundo de estradas e voltas, Chã, que gira, gira… Girou!…

– Eh!…, a sombra desta mangueira esfria a gente, sentado aqui não chega no Peroval…

– Lembra!… lá no tempo de criança, a gente brincava de gira-gira senhor do mundo: … água no balde ficava circulando rodante, sem fim, “quaje, n’é!?…” De debaixo, via corrente rotante. Era puro prazer, prova grande, maior de reter água em balde e estar girando… emborcado: sem cair… tapeando. “Caía não!…” Gostava de brincar de ver água estar pendurada e girando em céu de balde… “Eh, tal qual, arremedo!…” E quando parava, assim… de boca pra baixo, rolava tudo no precipício do terreiro… “Eh!… eu se ria…”, e se ria todo mundo… causa de nem céu tinha mais…

– Ah, Chã!… Isso Quim-Danhé falou, falou d’já hoje… assim… sabido de tudo… que bem lá pra diante das nuvens, Morro Pelado e acima tem um seu Cosme. Passa, repassa, passando: “zape!…” … num sabe que jeito, em brinquedo bicicletando pedal – que nem a sua, Chã. Vai torando firme, sem descansar por entre campos de castelos no céu de nuvens: poeiras, geleiras, pedras… … vai pra Jacutinga, Ouro Fino, Pirapora, Nova Odessa… tudo. De céu a céu: tão longe, muito!… por isso não cai, se diz…  Quando pedala bicicleta, não cai. Só assim é chão puro duro firme! Que nem a água do balde, Chã… Lembra, girando brinquedo, pendurada? “Eh!… ele fica ansim de bicicleta suspensa, à roda, com as gentes e os bichos e os ciscos e tudo cartas de baralho enroscadas nos raios e trovões?…” É, Chã… num gira-que-gira dos gira-mundos, rodopiante, estonteante, querendo sempre mais… “Que moda!… Por quê?”

– Roda a estrada um monte de andarilhos: gira mundo!…

O Fubá passa embora andante estrada afora. Lá no fim, despassa tudo, doido, no revés, para não querer nunca chegar…, não querer nunca chegar…, que não pode!… e anuncia neste céu de Cantare, em brados: “Viver é que nem ciclar bicicleta, não pode parar, senão se acaba tombado!.. Viver é que nem ciclar bicicleta, não pode parar, senão se acaba tombado!..”. É juízo mole? “Eh!… É tonto não, n’é?!…”

– Eh!… Que moda!…

– A mó’ de quê, Chã-Chã?…

… Que Ele-cujo monta nestes céus diversão, senhor do mundo, de sempre só modo mesclável: de pedalar e ir pedalando ciclável assim… se divertindo, que aprecia muito um prazer carrossel de circo, depois, Chã-Chã, vem instante; grita: “truco, truco!…”, e céu estanca dependurado, e tudo se basta, gasto, gasto, num sumidouro… do terreiro, tal qual. Vigia só!… Laz-da-Nica fala, fala saber; aspirado, baixinho, catando palavra, apontando o dedo pra cima, ciência pura dele: que quando seu Cosme bicicla caminho de circo, lá em cima, chega num lugar, aí: “tem mais não, tem mais não, acabou…”. Baixinho… fica encasquetando… pensamentos baralhados, sem atinar muito direito. Então… por que tem estrada se a cada volta pedal balanço de ciclos volta pedal balanço de ciclos vem os fins e tudo se afina sumido sem trecho de entrecho… se afina nos confins de se ir pra diante dos olhos, e finda sem nada? “Hum!… E carece tanto de estradas, n’é?” Chegou lá… depois, festa acabou… Acode aqui… não diverte mais a gente querer pedalar pelos caminhos afora andantes adiantes de sempre só? De que jeito ’cê vai na festa dos Pontes, se não tem mais estrada, de tão afinada e gasta? A estrada é de querer levar a gente longe mesmo… de andar girar pedalar; ’sobiando modas: torar tudo ciclando sempre cantante!… Só o que vale, e muito demasiado, viu! “É!…’Tro dia fui lá, láá… num sei onde! Quaje finzão de tudo, se divertindo, muito, e a estrada ia inda se abrindo outros muitos longes, seguia andante Cantare adiante se rindo afora sempre e só, que nem no caminhão do Chico Pascoar chegasse. … E querendo ir de mais além dos Vais… além do Vintém… quaje chamando em aceno… Mas, mas, aí… Ó!… O pé dói!… Doeu, doeu… muito!…”

***

– Eh!… po’ parar! Ansim não… Aii!… Dói o pé, aqui!… Tem formiga, será?!… Cresce um sumidouro, fundo, de formiga. ’Tá gasto?…

– Tanto girar ciclos, Chã! Que nem pneu…

Foi o Manuel-da-Farmácia, único que descobriu doença feia e falou ciência: “… deu açúcar aí dentro de vez tudo apodrecendo, degenerado em tangolomango, Chã! Fique quieto, se aquiete na sombra de uma árvore que abranda sua dor…”.

– Escute o povo falando!… Tem de fazer simpatia, que a rezadeira passou chá de Pata de Vaca, Funcho, Cipó-Cruz, Arnica… Hum!… Chã… chá de Mil-Em-Rama!… os antigos contam que é sempre bom em cura: “5 g em 100 ml de água fervente por 10 minutos. Tomar 3 vezes todo dia.”. Carece, viu, sem falhar nem cortar simpatia, hein, senão, o pé cai… e se aquiete na sombra…

– Eh… A sombra desta mangueira esfria a gente, deitado e mesmando aqui não chega no Peroval. Nem de nunca.

Uhmm!… Num pode mais ciclar nas estradas, tem jeito nenhum, não?… Tem formiga, será?… Ah!… Só um tiquinho de vez não judia, não!… Que carece ficar girando rodante, sem fim, de ciclos brinquedos: balanço avoando… ansim: vummm, vummm, vuuummmmm!… ciclando zonzin’, zonzando alegria… Até quaje gumitar!… Se não cai!…

– Espia só… Não seja tonto!… é brinquedo nenhum não, tem um truque aqui, Chã, e nem a benzedeira de quebranto traz tanta ciência de cura. Foi o Cuitelo e falou, disse então o Ticão, que também escutou diz-que dizendo em brados por aí o Zé da Cruz que ele-cujo fez de só pedalar circulante… caso que a roda cai, assim… que também, que também, passou o Damirus narrando, ’tru dia, saber que num hai modo de apear; l’em cima, Chã… sem um onde deixar bicicleta. Não tem chão!… Mesmo, contou, contou assim o Damirus!… De que jeito vai apear, quando o pé dói?… Já viu isso?… uma festa em nenhum lugar, sem terreiro. Sem onde pôr bicicletas carros cavalos gente… gente!… Ele, ele, ele: falou e falou… Não tem chão, Chã… … campos prados parnasos nem cumes nem mares nem Pontes Fontes Francos Cantare Ferreirinha… Morro Pelado Peroval Thermas… Nem casa do Ticão… Nem nada de nada. Só abismo!… Fundo de fundo de não-mundo… Fuuundo de a gente é fraco, cai no buraco, buraco é fundo, acabou-se o mundo!… … … … E o Ricer falou: ’tá falado, justo-justo mesmo… ’Tá lá só quando gira que gira carrossel, Chã, na volta que faz volta corrente em mil de mil voltas elos junjos, Chã!… girando dentados rotantes… tapeando… divertimento, ciclando, roendo sorrateiro todos os caminhos circulantes da gente: “vummm, vummm, vuummmm!…”, zonzin’, zonzando… até gumitar, de gasto!… E não é truco em falso, Chã!…

– Eh… É!… À sombra da mangueira a terra esfria a gente… Só cismando aqui não chega no Peroval. Tem precisão de pedalar, sim, sempre: assaz. Cadê a bicicleta?…

– Não, não!!… Escuta o Laz-da-Nica, povo, põe fé!!… Escuta, escuta o Laz-da-Nica, povo de gente Cantare, põe fé!… Estas estradas sempre se acabam em nada, degeneradas em tangolomango!…

É… tem mais não, tem mais não, acabou…

– “Eh!… Mas… Sassá, dá já a bicicleta, aqui, que voo pro Peroval ansim me’mo!…”, “Quá’!… que seja assim, então!… …,” “Não!…”, “Vai, pedala, pedala pro Peroval!…”, “Não!… Vai acabar o caminho num fim de tudo, no sem-mundo de buraco fundo, em seu pé de pneu, Chã.”, “Vai, Chã, pedala em voos, num tem onde apear!!…”, “Eia!… estrada gostosa, Sassá.”, “Não, não… despedala tudo, volta!… e volta!… e volta… pedal a voltas mil elos junjos… ungidos, Chã!…”, “Gira, gira balde debalde de águas rotantes, gira, gira… Vai cair!… vai cair abismo terreiro!…”, “Pedala e pedala!!!…”, “Eh!… Carece mais caminho!…”, “’Tão, volta, desvolta…: despassa tudo, Chã!!…”, “Vai, gira pedal engrenagem!!!!…”, “Eia, gostosura de estrada divertida!… Roda corrente rotante!!!…”

– Não, não, não!!!!…

Truco!… truco!… truco papudo, que tenho zape!!!!…

 …………………………………………………………………………………….

 – Eh!… O Laz, cadê a estrada? O gato comeu?!…

Eh!…  Dá já u’a guarapa, aí, então!… Isso sim, que diverte a gente… se acabar nos confins dos grotões com estes caminhos de estar e pedalar carrossel em céu aberto às nuvens, Sassá!…

(de Cantare Estórias)

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