Roças Cibernéticas

Uma das cosias mais sedutoras da vida moderna está na constante virtualidade de termos roças cibernéticas na porta, ou dentro, de nossas casas: bastam clicks, minutos, e uma bandeja de caqui suculento aparece num xênon flash!…; e sem vespas esvoaçantes.

Indo para uns antigamentes, coisa de 20 anos, de vida no campo, o viver era complicado e deveras real. O sustento derivava só e somente de uma roça cabocla, tão caapora, que melhor seria ficar sem suprir o desejo. Por conta disso, crianças nasciam por lá e por esta época com todo tipo de mancha. Tudo se constituía em demanda Graal. No tempo de caqui, a fruta dava no caquizeiro… e se punha protegida; bem penduradinha lá na ponta dos galhos, finíssimos, que dobravam para  um abaixo abismo estonteante.  Assim, um cuidado enorme se estabelecia. Mas após escalar o caquizeiro, aproximar-se da fruta vermelhinha, no equilíbrio perigoso da gravidade newtoniana, outro problema surgia: uma esquadra aérea de vespas infernais com ferrões bélicos, doloridos, zumbia ataques esvoaçantes. As laranjas maduras: – é necessário postular aqui que, sempre, cada fruta só em seu tempo –, borradas com uma película de poeira daquelas estradas amarelas, e quando sempre, uma caixa de marimbondo no pé, dizendo ao passante: – “Laranja madura, na beira da estrada, tá bichada, Zé, ou tem marimbondo no pé!”. Sem falar nas mangas… que… numa outra vez, Sr. Arfeu Sarte baixou permissão expressa: subir naquele pé de mangueira que dava manga espada amarelinha; e pendurada lá na ponta do céu. Nem conto!… Bem quando ao pegar com estas mãos que a terra há de comer, uma enorme cobra: uns vinte metros, nem se viu direito, mas era, por certo, urutu, mboiossu, caninana…, não, jararaca!, ou ainda todas estas juntas, aparece sinuosa,  de língua bifurcada, roçando ar, se enroscada nos galhos, cabeça levantada ao bote… O povo de gente desceu lá como pode, no empurrão da força newtoniana, apavorado. Um caiu. Perna quebrou. Outro, se  esfolou todo. Ainda traz cicatrizes…

Bem!… O que vale é que o homem sempre anda pra frente, porque atrás virtualmente vem gente; empurrando… E hoje, estas metropolises de alamedas em arvoredos e bosques de prédios com elevadores provêem, bem pertinho, quadro a quadras, roças cibernéticas, com caquizeiros, laranjeiras, limeiras, tamareiras, macieiras, cafezais, milharais… É só ir contornando as gôndolas virtuais ou reais, seguindo os cheiros de sabores espalhados pelos mercados cibernéticos e colhendo o que mais lhe apraz, sem sofrer tanto a desagradável força newtoniana, nem vespas, marimbondos, mboiossus apavorantes e outra fobias!…

– Isso. Por hoje é só.  Estou aqui na Rua que sobe e desce onde o número sempre aparece, 2010. Crédito.

Crônica publicada pela revista SuperHuper

http://www.abras.com.br/superhiper/superhiper/publicacoes/

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