Crônica de um Reencontro

Com um carrinho, Ema contornava as gôndolas do mercado União quase que sem interesse, passava distraída pelos produtos, agora os corredores eram imensos de longos, e às vezes tinha de voltar lá pro início, porque se esquecera de pegar algo que precisava, tão aérea se encontrava, e por duas vezes teve de voltar. Olhava a lista. Novamente faltava uma lata de ervilha, pacote de macarrão… Nem sabia a serventia daquela compra, que nada lhe trazia prazer. Quando levou a mão, automaticamente, para apanhar aquele Talharim Frescarini, num flash, veio lembrança, que pretendia nem lembrar… Uma lágrima muito sutil rolou, porque hoje faz exatamente um mês que seu amor desapareceu, após um jantar tão farto de risos, massas, olhares, queijo um beijo em taças de um vinho tinto Pinot… No outro dia, ligou para reviver o jantar, mas o telefone chamou e chamou em altos brados desesperados, e nada, nada de sua voz respondendo ao menos um alô fático… Por onde havia se metido, em qual espaço de rua, de prédio desta cidade está desaparecido meu anjo de anos que me ama e tanto nos amamos?…

O som das rodas do carrinho indicando movimentos, única percepção do lugar onde estava, porque tudo rodopiava insípido, por completo… bolachas, latarias, frutas, bebidas: tudo exalando o mesmo cheiro… nada, não há sabores nos ares desta cidade inteira!…

Mas ao dobrar a próxima esquina veio um repente:

“Com licença, moça!…”

Aquele som penetrou em seus ouvidos, lá no fundo mesmo, e o mundo abriu num instante cheio de cores e cheiros. Só podia ser ele: seu anjo de anos que me ama e tanto nos amamos, ali em sua frente. Como!? E ela grita alegria:

Lenz!!!, sou eu, Ema! Meu Deus, sumiu, por onde esteve?!…

E Lenz, um tanto desnorteado, voltou a ela um olhar vago de dar dó…, como de um animal indefeso, carente, querendo reconhecer aquele rosto, vago em suas lembranças…

Perguntou:

Quem sou? Me mostre a saída, a rua, a direção da casa de meu anjo de anos que me ama e tanto nos amamos, mas que tudo sumiu de minhas lembranças. Veja aqui nesta foto nossa história trafegando as ruas de monte Sião.

E Ema, ao olhar os documentos de Lenz, completou sua imensa alegria: é mesmo seu anjo de anos que me ama e tanto nos amamos, inteiro, a sua frente, pedindo, pedindo uma nesguinha de reconhecimento…

Segurou firme em seu braço, percorreu todas as ruas em gôndolas de alegria buscando os mais nobres produtos, e duplicou aquelas compras, incluindo um Pinot Noir… porque ela vinha-ele vinho sedentos em taças de tudo recomeçar…

(Crônica assinada para a Revista SuperHiper)

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