Crônica da Batinga

Crônica da Batinga

O nhambu piou lá na palha. O Zico Tropeiro arrumou apetrecho, tomou a estradinha de terra batida e tortuosa que passava beirando o terreiro do casarão, onde era colono, seguiu indo para um alto de tudo que era cafezal. Antes, deu boa tarde ao fazendeiro Gustavo, disse que traria umas caças pro almoço de amanhã, que era domingo.
Depois do curral, vem a baixada com uma aguinha fresca, viu a caixa de marimbondo tatu no topo da pereira – passou quieto, silêncio de tudo, o café enfileirado bem íngreme e a pique, pelo lado esquerdo, o pio do nhambu se misturava agora com os de juruti, codorna, perdiz, jacu, cutia, tum-tum-tum dos mutuns espalhados pela força da roça: meu Deus, quanta gente transitando por este mundo afora e eu aqui neste cafezal, de espingarda nas mãos, aprumando para o ventre deste dia! Pensou muito… Cuidado com o curupira! Piou num falso pio a voz do nhambu. Um enorme, em despropósito de gordo, veio, pousou no galho bem frente aos olhos e à abertura do cano da arma de fogo, que só de apertar o gatilho as narinas sopram uma radioatividade que derrete a ave, o café, o inseto, o curupira… derrete o chão profundo e perfura fundo quase que a despontar do outro lado. É perigoso, pois não se sabe o que há do outro lado, principalmente porque restará, em aberto, uma nesga no centro da terra, no tempo…
Segurando a mira. Veio também um sabiá piranga de peito vermelho e fofo no galho da ramagem ao lado, que percebeu num olhar de través. O nhambu de frente envergando o galho, sem rabo, por ter perdido lá nos tempos de primeiro, numa grande briga. Hoje aqui nesta roça, frente ao cano de uma arma pronta ao tiro. A cena continua presa na fazenda do Gustavo, lá nos altos do Morro da Batinga, pura roça de só cafezal circundando vastas terras: a voz do sabiá piranga vibrou, triste, no ar: “Tem dó de mim, senhor, tem dó de mim, senhor!…”.
Pensamentos baralhados, mas a posição firme, imóvel. Nuvens velozes correndo no céu: sol, chuva, frio, calor, tempestade, tempo trespassando exatos naquele cano da arma, dedo no gatilho do Zico Tropeiro, puxa, não puxa, a abertura do cano da arma de fogo: que só de apertar o gatilho as narinas sopram uma radioatividade que derrete tudo… As nuvens continuam velozes no céu… Sabiá entoando: “Tem dó, tem dó de mim, senhor!…, …”
…, …Quando desceu do cafezal, o casarão da fazenda em ruínas, a estrada para Ouro Fino toda asfaltada: reta e plana. Grãos de café, torrados e polidos, pavimentando as ruas de Monte Sião; um cheiro!…, enquanto os cafezais passam, como fios, ininterruptamente pelas platinas, agulhas dos teares, que tecem prédios, helicópteros esvoaçantes e canários da terra com abusivos cantos alegres nas árvores da praça. O vento soprando em uivos lá no topo dos últimos andares que cada vez mais arranham o céu de Monte Sião. E as nuvens continuam velozes…

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