Na Cachoeira do Coqueiral

Na Cachoeira do Coqueiral
José Alaercio Zamuner
Foi lá na cachoeira do Coqueiral.
O grupo estava sedento de tantos dias sem mergulhar nas águas que chegam e tombam sonidos do espaço superior, represado de águas; e calmas. Às vezes.
Deste lado daqui, inferior, bem na vazante, um já se punha tenso nos olhares fixos na linha e movimentos da correnteza entre as pedras imensas no fundo d’água; porque o profundo cria sombras, tantas sombras indefinidas entre pedras duras de milênios; e os bagres gostam de ficar no escuro do dia: o Bacalhau, em pleno sol das dez da manhã, com três bons bagres, postos ao sol, a espera do fogo, que o Galo, o Tuvira, o Gabiru arrumavam de catar gravetos, paus mais grossos trazidos na força voraz daquelas Águas, que chegam em melindrosas correntes, que são bravas quando tombam na Cachoeira do Coqueiral. Tombam zumbindo; nos ouvidos de quem enfia a cabeça por entre o véu, véu de Águas caindo. Muitas vezes elas encobrem, na superfície, um reboliço fatal por debaixo: mas os peixes caem, sempre no anzol; e nas redes, porque desta vez o Potreco também estava lá, para armá-las… Tudo já combinado; e acontecendo…
O fogo levanta as chamas, queima; um ou outro bicho do mato ou peixes nas brasas: eram os bagres do Bacalhau, um coelho do brejo, um pato selvagem… Bem quando, quem do lado de cima, não do baixo lago das Águas Cachoeiras, entreviu alguns seres do mato em movimento. Se arrepiou, anunciou visagens: pios delusos e tristes, quase fora de hora, pulavam de galho a galho, outros mais viriam…
– É só um passarinho fazendo “Sem-Fiiim!…” –, gritou, daqui, o Cabrita. Mas os outros todos entreouviam um “Fi-Fii!” finíssimo. – Não, não, foi “Peixe-Friito!, Peixe-Friito!” –, disse o Tuvira, – Não! Ouvi sim, daqui, um “Sacii, Saciii!”, – Quando isso, Morcego!… Saci, não!… É um “Seeco-Fiiico!…” arrepiante que rodeia tudo.
Rodopiando estavam os pios, destoantes, nas copas das árvores coqueiros que subiam além céu. Investigaram muito. Mas o dia era vestido de límpido anil e de um resplandecer ofuscante: – Não fique assim olhando pro céu, oh Corimba! –, – Então vou dar um mergulho!… –, foi o que proferiu Corimba.
E foi. E subiu. Do topo superior, levantou parece que em voo: mãos postas como em última reza, de fazer linha reta, se pinchou e veio descendo, descendo na coreografia das Águas em véu, véu mesmo, que ninguém via mais nada, porque a luz do sol prateava tudo; tudo de um véu dissimulante do incidente daquelas Águas da Cachoeira do Coqueiral caindo, caindo, prateados…
Logo, sobe a mancha vermelha até a superfície. Mas muito vermelho intenso de sangue que escapava lá do fundo. Das sombras! Talvez das pedras. Sangue que manchava profuso o resplandecer ofuscante daquele dia.
Nem ouviram mais aqueles pios que continuavam insistentes nas copas das árvores, sobre as Águas da Cachoeira do Coqueiral.

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