Aulas do Senhor Libério

Aulas do Senhor Libério

Nos idos de mil novecentos e setenta e tanto, quando os anos passavam bravios na esteira do inexorável tempo, encontrei um tal de Senhor Libério Solto Maior. Nordestino de origem, morava nas redondezas da minha nova casa. O local para encontrá-lo era às portas de um mercadinho que sua filha, Inês, com o marido, Amilcar, tocavam no Guarujá. Mercado e padaria, servia-se de tudo. Eu, acabado de chegar do interior paulista, muito caipira, logo travei uma necessária conversa com o Sr. Libério. Homem de aspecto simples, pouquíssima educação formal, tal qual a minha, mas de uma erudição e sabedoria invejáveis. Ouvindo suas estórias, viajava pelos mundos que ele havia percorrido, quase todos estranhos pra mim: de Macau à Patagônia. Citava estadistas que nem nunca tinha ouvido: Mahatma Gandhi, Winston Churchill, Thomas Jefferson. A qualquer momento, recitava Castro Alves, Álvares de Azevedo, Cecília Meireles, trecho de Machado de Assis; claro, sempre vinha uma parte de Robinson Crusoe, de Daniel Defoe. A calçada do mercadinho da Inês virou, pra mim, uma sala de aula e o primeiro teatro que remoldaram minha vida. Recém-chegado das roças, nada sabia além de alguns poucos nomes de violeiros, que não desprezava, mas Sr. Libério também os conhecia. Aos poucos fui sabendo, por meio de suas estórias, que Sr. Libério fora marinheiro. E sua única e verdadeira instrução viera dos tempos de taifeiro em um navio cargueiro. Sempre em alto mar, visitou e conheceu mundos reais e dos livros.
Mas, o mais interessante era que, quando Sr. Libério tirava o dia para encher a cara de cachaça, a coisa mudava, transformava-se de um caboclo simples para um rigoroso mestre intransigente. Falava muito, desafiava as pessoas, não suportava idiotices, falava mal do governo; nós, ouvintes, morríamos de medo, porque estávamos em pleno governo Geisel. Acentuava seu poder de professor e cidadão cobrador de seus direitos. Sóbrio, era uma moça educada. Já com uns goles a mais… Eu passava vergonha. Me pegava pra Cristo, por sua pura confiança talvez, me pedia para recitar alguma quadrinha caipira. Sem sucesso, esbravejava, urrava a infelicidade de ver um jovem não saber recitar um poema, não saber uma linha sequer de um romance, nem saber algum título de um romance. “É isso que esse governo ditador e capitalista quer, a burrice ululante, como diz o Nelson”, referindo-se, claro, ao dramaturgo Nelson Rodrigues. Mas ninguém dali sabia muito sobre aquilo tudo. Então, desafiando os clientes do mercadinho, todo troncho, pendendo, com bafo de cachaça ruim, ficava em pé e mandava um trecho de Romeu e Julieta, ao término dizia: Shakespeare. Depois, alguém lhe trazia mais uma proibida dose da “marvada”, e ele mandava o seu poema preferido Ai! Se Sesse!: “Ic!… Esse é do conterrâneo Zé da Luz, ic”. Sempre assim, o marinheiro recitava a obra, em seguida título e autor, completando as funções de ator e professor, para um público carente de pão, circo e educação.
Me mudei de lá, fiz meus estudos formais, me formei professor, estive em muitas salas de aula, com muitos mestres, mas a minha maior e verdadeira escola e professor mais autêntico vieram da pura informalidade de um marinheiro chamado Senhor Libério Solto Maior, à beira de um mercadinho.
Crônica do autor publicada na revista SuperHiper, julho 2012

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