Uma Caçada de Tatu

Uma Caçada de Tatu
“Corre cotia,
Na casa da tia,
Corre cipó,
Na casa da avó.”

“Viva eu, viva tu,
Viva o rabo do Tatu!…”
(Cantigas que Alceu Maynarde ouviu em Cantare)

Sabe que… quando se vive no campo, o sujeito desfruta de tudo quanto lhe é oferecido: o sertão está sempre aberto a qualquer paixão. Conta-se que é ele quem primeiro disse: “Qualquer paixão me diverte!”. Então, um dia o sujeito vai prosear e tocar uma viola na casa do amigo, que por sinal é seu compadre, outro dia vai pescar, outro vai caçar inhambu, outro, codorna, outro, lagarto, outro, cutia, paca, e outro… Tatu!
Aporta, então, um destes outros dias lá em casa uma vontade enorme de comer carne de Tatu. Já vinha para mais de ano que não punha um bichinho desses na panela: e Tatu refogado com batata fica daqui de bom!… A mulher e as crianças lambem até os beiços.
Chegado por completo nesse dia da roça, catei minha espingardinha, aviamento, chamei nosso companheiro de anos, o Bidu (O Luizinho da Ina Preta por perto, rezando reza brava e recomendando cuidado com assombração e curupira… que naqueles altos, uma vez um deste, caboclinho de juba-rubra encantado do mato surrou cão e dono em despropósito: o cão deixou de prestar pra caça e nada mais; o dono deixou de fuçar diversão em mato… parece moça, e anda triste que só!…), … e fui saindo m’embora, morro acima, morro abaixo, que só tem morros prestes lados, meio boca da noite… até chegar no espigão da divisa do Zé Méi com seu Mingo Deseró, onde um valo comprido se punha: hã!… lembrança da época da guerra; trincheira de sombras hostis das gentes do café com leite. Cada qual vestido sua manha feição, mas tudo farinha dum mesmo saco estouvado. Esta aqui… feita pelos soldados paulistas. E metralhadoras com soldados diversos cavaram a outra trincheira, da divisa com Minas, ambas cuspindo chuva de fogo pra cá e pra lá… “Caspita!”, “porco-giuda!”, “Madona mia!” era o que se ouvia daquela gente de imigrantes. Sangue correu aos borbotões com o enxame em brasas vindo do céu, guerra feia, até hoje se conta dessa estória… guerreantes tombando aos cachos no desamparo cristão. Lugar assombroso esse. Duas fileiras de árvores, uma de cada lado, correm o comprido do valo, fechando as copas l’em cima, para fazer escuro l’embaixo… Povo conta que em noite bem escura, sem luar (não esta claridade no céu de cidade), dá para ver luz de lampião correndo a cabeceira desse espigão: é a procissão das almas penadas de soldado, baleado e enterrado ali mesmo naquele campo-sangue… sem nem capelão na extrem’unção; e que ainda tinha algum ajuste cristão aqui na terra…
Mas a roça é sóbria!… como se diz, de parceria com o tempo, trata todo ser vivente por igual, e assim o fez… no final de hoje, restou só ossos às estórias e a…
… a tatuzada, que não entende desse negócio de política, guerra, soldado, morte e alma penada, faz por ali, ao longo da velha trincheira, suas tocas… Muito justo, porque as gentes dessas roças dizem também que Tatu gosta é de fuçar cemitério e roer osso de defunto, não é?
Modos que eu ’tava já na cova da velha trincheira, andando com atenção posta nos barrancos para ver algum buraco de Tatu com terra fresca, que aí era morada recente, e o bicho devia de ’tar esperando o reverso das coisas: a noite entrar para ele sair à vida.
O Bidu (animalzinho louco de bom, de caçadas mil de outrora, ruço de experiente) me acompanhando do topo do barranco, do lado do Mingo, onde se fazia uma capoeirinha, bem caapuera. De repente, ele parou seco, fez “humm, humm, humm…” de aviso, empinou as orelhas-parabólicas, rastreou a área, preciso!… e saiu desembestado… (isso sim que é bom estar num mato; mas com cachorro escolado!…). Saltei daquela vala-brenha e fui atrás: corri um tanto em ziguezague, cabeça baixa pra não levar um riscão nos olhos, e parei: aí ouvi mistura de risadas rosnadas: “qui-qui-qui, ró-ró-ró, qui-qui-qui, ró-róró…” Quem… quem pode estar por estas bandas das terras e do dia clamando e rosnando?… Quem?… É o Curupira atormentando minha caçada! Quem, quem?… é a Porca dos Sete Leitões, é a Pisadeira!!… Vige Maria!… são as almas das tais Três Irmãs de Habito Santo!… Murututuei comigo mesmo, assombrado!… E rezando o Creio-em-Deus-Pai detrás pra diante… me vesti de coragem, que nunca me faltou após uma reza dessas…, fui bem devagar, no pé-e-ante-pé, noite escura de tudo vulto, até uma moita de garra-compadre, de onde vinha a visagem, para espiar direito… “qui-qui-qui, ró-ró-ró, qui-qui-qui, ró-ró-ró…” e vi… Real!
Sabe o que estava acontecendo?… Explico: O Bidu, que era muito velho, e por causa disso já estava banguela, tinha pego um Tatu: o bicho-presa estava de barriga pra cima, e meu cachorro, na valentia ancestral, rosnando e mordendo, mordendo e rosnando, rosnando… a barriga Tatu só com as gengivas, e o bicho se matando de rir: “qui-qui-qui, ró-ró-ró, qui-qui-qui, ró-ró-ró…”
…Ninguém aquerdita, mas é pura verdade!…
Aí, fiquei tão tomado de coração cortado e sentido ’tra veis, que dei um tiro pro céu, espantando os bichinhos, ’tadinhos!… Acabei com a festa, chamei meu cãozinho de caçadas mil de outrora e, assoviando floreado, tomei o caminho de casa sem caça, mas com um par de boas estórias pra contar nesta roda de prosaiada.

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