Crônica Genuína da Batinga

Crônica genuína da Batinga – Fonte: “Jornal Monte Sião”

Não posso nem me alembrá!…
Foi nos idos dos anos 90, quando, já estabelecido em São Paulo, trabalhando num hipermercado dentro do aeroporto, me mandaram estudar línguas: inglês, alemão, espanhol e coisa e tal… Porque, de todos os lados, vinham aqueles homens compridos, pisando alto em seus gestos e roupas de StarWar, falando suas falas de seres extraterrestres nos ouvidos deste caboclo que vos fala, saído das roças de Monte Sião, que, ao término da aula do Grupo Escolar da Batinga, saía correndo pela estrada de terra amarela com um estilingue pendurado no pescoço…
De repente, irrompendo um lapso de tempo, me vejo em uma sala de idiomas, e lá vem e professora me indagando:
– Conte o que sabe do que leu!…, cortando meu silêncio de caipira.
– Do que me alembro…
– Me alembro… nada!…, talhou, a professora; e a sala, imediatamente, explodiu numa risadaiada descabida…, interrompida pela professora, que completou me corrigindo, bem firme, pausado, como se eu fosse surdo:
– Não é “me alembro” que se fala!
Calei meus raciocínios, me fechei em mim, acabrunhado; considerando o grande ensinamento que tive das roças da Batinga. Mergulhei num redemoinho de reflexões em plena aula, que já não ouvia mais nada… Como pode um povo todo falar errado? Não!… Fiquei resmungando baixinho as tantas vezes que usei tal termo: me alembro do córrego cheio de lambaris, me alembro das estórias de saci, me alembro da raspa de sorvete do Mercadinho Luiz Virisso, me alembro da Rua da Saudade… Ah!…, me alembro que meu pai mandou uma carta, ’tru dia, e começava assim: “Zé, ocê si alembra da Dona Dalva? Si mudou pra Oro Fino.” E eu entendi e me alembrei dela direitinho. Então, como é que não é “me alembro” que se fala?
Matutei por um bom tempo essa cena. Sempre me via com a pecha de ser um sujeito da Batinga que fala “me alembro”. E era isso mesmo. Cresci falando assim! Por um tempo senti a fala dos seres interstelares sobrepondo a minha fala, me corrigindo na lata, bem onde se aprende as diversas falas que circulam no mundo… e meu falar caipira sendo subjugado:
– Não é “me alembro” que se fala! Essa correção lacônica martelando em mim, com ares de sabedoria aristocrática: Onde está o erro mesmo?…
Mas o tempo, que é o grande mestre que ensina a todos, foi passando, e eu, no meio de todos, aprendendo depressa, lendo o mundo à minha volta; sempre com aquela frase pendurada em mim: – Não é “me alembro” que se fala!…
Numa das voltas elípticas deste nosso tempo mestre, logo constatei o que já sabia de criança: que aquele “me alembro”, lá dos anos 90, não trazia e não traz nada de errado, ao contrário, era, sim, a mais pura expressão do chão de Monte Sião que estava grudada em mim, como todos os idiomas estão grudados em seus falantes, todos expressando suas maneiras genuínas de falar, pensar, provando que todos os idiomas são exatamente iguais… e o meu no meio: cada um justo às suas fronteiras, ao seu tempo real, sem modismos ou firulas.
Não pude completar o que sabia, porque, não fosse cortado, minha fala sertaneja seria:
do que me alembro…, em “Eveline”, de James Joyce, a mocinha representa uma sociedade provinciana: cafona, que sonha com um mocinho romântico, montado em seu cavalo branco, vindo ao seu resgate, num tempo em que o capital corre largado, carente de mocinhos românticos… Eveline é uma mocinha fora de moda, mas como se diz: pão ou pães, é questão de opiniães…
E, do que me alembro, tenho dito!…

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