FABULARAMA (Mitos e Lendas)

Sobre a obra FABULARAMA,  maio de 2014

Foi assim…

De primeiro, quando muito pouca gente andava por estes lados do mundo, quando isto tudo ainda se tornando em roça e vilarejo de cidade, de repente, veio tremor sísmico que durou sete dias e sete noites seguidas. Contam os antigos que, por esse advento, um ronco pairou zumbindo sobre a crosta destas terras, porque fendas subiram de um fundo tectônico na força de rachar a terra e expelir, quilômetros acima, um intenso nevoeiro de vapores radioativos, nuvens de enxofre, e poeira de silício, e mais caos que escureceu, de estranha cor, o sol do céu… depois deixou o dia para sempre encantado, até aparecer uma noite, que ficou muito mais misteriosa e fantástica do que qualquer outra noite.

Vão ouvindo…

O recorte acima é o início de Fabularama. Uma obra que tem como motivo as narrativas orais (mitos, lendas…), o nosso folclore, uma cultura formada em solo brasileiro com o encontro dos povos: Tupi-Guarani, Europeia e a Africana.

Vai ouvindo…

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A Sacizada entra na Copa do Mundo

Crônica do Bamburral: a sacizada na Copa do Mundo

Aconteceu no Bamburral. Época da Copa do Mundo, muita confusão, gente estranha vindo pra região, todos os hotéis lotados, o Oscar Inn com Três comitivas, helicópteros rasgando o céu, barulhão danado; até infernal… Pane!

Pane. Foi o que aconteceu com um dos helicópteros (Apache) do exército dos EUA que transportava seus jogadores e toda uma grande comitiva.

Pane mesmo, bem nos ares do Bamburral. A máquina com toda a comitiva americana rodopiou no ar, desceu, subiu, mais rodopios, engrenagens rangendo, barulho infernal; meados de junho, crepúsculo instalado, seis da tarde, o piloto da nave, experiente de outras guerras, o Norman Kopf, insiste, insiste, mas a danada da nave tava louca. Restou um vendaval enorme, de cochar e zumbir o ar: (djê, djê, djê, tçá, tçá, zzzuuiim!…) e mais (Ruuóó, Ruuóó!…), sons de horror nas turbinas, as árvores e bambuzeiros contorcendo de dor, zumbindo e se esfregando, como nunca visto por este chão. Ah, pra quê!… Foi o que aconteceu e bastou: os Sacis dos bambuzeiros acordaram de um longo sono profundo e foram saindo, alguns nascendo, porção deles, tomando o ar do Bamburral, das cidades, aquele monte de entes encantados, negros brilhosos, gorro cor de sangue, de uma perna só, porque só saltitavam, fumando cachimbos fedorentos: bem mesmo de como aprendemos com os antigos e nas escolas. Porém, aqui fica outra constatação, a principal e real, porque isto é uma crônica, estes seres da raça do Saci são malévolos: o ar infestou de mau cheiro e muitas travessuras. Daí, soltos, tinhosos como são, saíram encapetados, fazendo das suas peripécias; no Brasil todo, e com muita raiva, porque tavam dormindo ainda. Só se via comida estragando nas concentrações das seleções; estrangeiras: jogadores sendo internados no Hospital de Águas (que dó!); jogadores caindo na bandalheira, bebedeira mesmo: a seleção da Holanda passou a noite com as primas lá do Saltinho; houve jogo que não aconteceu: a seleção da Argentina, na véspera do jogo, entrou no alambique do Lair, Sítio São Pedro, e saiu de lá bebinhos de tudo. Os jogadores americanos, que estavam no helicóptero, apearam no Bamburral, famintos que só, acharam umas jabuticabeiras carregadas e começaram a chupar jabuticaba (temporão), com caroço e tudo, mas chuparam tanto, tanto que se estufaram empanturrados, depois, iam ao banheiro; atrás das moitas, e nada saía, e não teve um cientista americano pra dar jeito ao ressecamento deles: entupimento mesmo. Então, o jogo EUA e Alemanha não aconteceu. Foi um forfé!

Bom, resumindo, o Brasil foi o campeão, sob protestos das outras seleções. Mas, fazê o quê, se ninguém não vê um só Saci destes fazer um quê dessas peripécias. Depois, quem manda fazer tanto barulho de máquinas de primeiro mundo por estes lados de só matos. Tanto que, depois da copa, os entes do Bamburral voltaram ao normal, dormindo sono profundo.

É isso. Conto assim porque sou o cronista destas bandas, e foi assim que aconteceu.