Crônica do Vaz: o roubo de uma amor

Crônica do Vaz: o roubo de um amor

O Zé Vaz sente a dor da saudade até hoje.

Violão mudo num canto da sala, sem corda, bojo todo riscado, puído com o tempo, como seu coração, socado no fundo do peito, porque esta história corre seus quarenta anos. Quarenta anos, já pensou? E resta lá dentro intacta, forte e invisível, até as casas, as ruas, as estradas: tudo congelado no fundo do tempo. Fica tudo pendurado em sua lembrança, balançando cada imagem daquele tempo em bandeirinha, para, a qualquer hora, romper, novinha e violenta que sempre é, e ainda corroer últimos músculos de seus dias nos dias de agora com a dor da saudade, saudade de seu amor, presa no coração…

Foi que o Zé Vaz, cantor e tocador de violão, um dia de quarenta anos atrás seguia sua vida num rumo plano e liso, cantava e tocava suas modas, querendo somente seu lado cantor. Saía do Bairro do Vaz, chegava na rádio do centro, tocava e cantava bonito, depois, violão em mãos, seguia pra casa. Era assim só que era, até no porém de um dia…

Um dia, faz quarenta anos isso, parou no Bar dos Amigos para tomar um café, e lá estavam dois grandes olhos, tais mesmos da italiana Giulietta Masina: negros e redondos, cílios bem feitos, voltados pra cima, num rosto barroco de alegria angelical que riam pra ele, puxando-o, puxando-o para dentro deles. Nos quais ele mergulhou na loucura. Nunca tinha nem se quer conhecido nenhuma mulher, e ali estava uma menina, mais nova, em convites de belos carinhos. Ficou alucinado de repentino amor, o Zé Vaz. Voltou lá pros Vaz, a pé, que nem sentiu distância e nem o pó daquela estrada amarela de Ouro Fino. Quando logo tornou a cantar na Rádio Difusora de Monte Sião, aí sim que abriu peito Orfeu em cantoria de alegria. Sua voz difundiu pros ares o som maior de seus cantos, jamais alguém viu isso num cantor, que silenciava bichos, serras, campos: “eu canto o instante d’um amor profundo maior que o mundo!”, “Eu vi numa vitrine de cristal”. Era março, era abril, correndo peito cheio de voz veio maio e caiu no lindo junho dos namorados, quando sentiu suave maciez por inteiro do corpo da bela boneca, a Italiana. Depois e constante sua mente vestiu repleta de imagens da linda menina de minha vida de olhos exuberantes e brincantes dentro de mim. Alegria! Alegria!! Foi cantando, tomado de intenso amor, cheiro da pele da bela em sua repleta alma de namorados: cantou muito. Chegou julho, tanto amor, nem viu entrar agosto, depois setembro seguindo fervente, quando ouviu as primeiras querelas dos parentes e fidalgos que Zé Vaz não tinha quinhão de terra, só voz e violão pra cantar, pra cantar: “Isso não sustenta um homem!” Outubro veio, ainda seguindo novembro chegou, direitinho, isso está em uma das bandeirinhas, bem congelada de sua mente. Veio uma festa que foi dançante, e dançou com seu amor. Levantou-se: pela primeira vez seus passos rimaram abraços com rosto-em-rosto num sentir calor nas peles envolventes lábios hálitos mucosas das bocas simbióticas com teto vibrando até se abriu magicamente pras estrelas em pulso-pulso… só os dois no centro do salão rodopiando Andrômeda latejando lá em cima cometas em disparadas velocidades no espaço-tempo do cosmos.

Dezembro chegou. Veio Natal. Veio o Fim deste Ano que girava num bólido apressado demais, até o dia 31, último de Ano… Às vezes o tempo voa além da conta, além da luz.

O fim foi assim, congelado numa bandeirinha, intacto. Tudo arrumado, parentes e fidalgos e amigos, todos visíveis e invisíveis, a hora da festa rolando vitrola, e surge um evento que está registrado, certinho. Delírio. Delírio!… Seguraram o braço da moça italiana e puxaram, juntou muita gente, era num sei quem puxando, puxando… todos correndo…, e num sei quem puxando, puxando… Não dava pra ver de invisível que era. Até hoje ninguém sabe.

O certo mesmo foi que, num repente, deu pra sentir o calor do ar queimando em fissão, um feixe de antineutrino linguarudo (nominado Monstrinho) brotou rasgando da terra, violento, e entrou no bojo do violão, ramificou metástase pela garganta do Zé Vaz e danou tudo em pele e pinho apodrecendo, desceu pro chão novamente (esse tal Monstrinho) e foi rachando tudo em fissura bem pro fundo da terra que deu pra ver um satanás muito chifrudo querendo vir subindo e chamando a cuzaruinsada toda dos infernos, todos vindo e subindo pela fissura da terra, que estava agora em exposta ferida. Deu dó do Zé Vaz…

Gritos e gritos: – acuda o Zé Vaz, povo, porquanto que sua italiana vai simbora levada terra adentro!!… Ainda muitos outros gritaram, lá, acolá, madrugada afora ouvia-se um eco: “acuda o Zé Vaz, povo, porquanto que a italiana vai simbora levada terra adentro. Acuudaaa!!!…

Ia morrer se o Último do Ano não acabasse. Porém acabou. Entrou o ano novo. Os dias eram novos agora. A terra fechou sua fissura. A cuzaruinsada sumiu. Quebrados, restaram assim por igual: violão e peito partido do Zé Vaz. Aquele ano novo foi andando pra frente nos passos mais lentos que o mundo já viu. Nunca passava de tudo. E nunca passou de tudo. Está lá intacto como hoje está este hoje. Tudo em bandeirinhas das imagens-lembranças, porém envolvidas em carne, pele, pelos: estes sim, esgarçando, esbranquiçando, sempre.

Faz quarenta anos que seu amor foi puxado pro centro da terra: na força dos vagabundos invisíveis antineutrinos (O Monstrinho), que devem estar, todos, nos fundos fornalhas da terra!

… Em suas prosas de bar o Zé Vaz sempre conclui: “Que a terra lhes seja bem fornalha!”

JAZ

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