Crônica da Lagoa Dourada: em forma de mil causos

Crônica da Lagoa Dourada: em forma de mil causos

José Alaercio Zamuner

Bem neste início da primavera, com a primeira chuvarada, apareceu um jacaré lá na Lagoa Dourada, e logo instalou morada, o que chamou atenção de todos os moradores. Daí, só se via povo de pescadores e caçadores indo pra Lagoa, gente de todo tipo, experiente, amador, com uma finalidade categórica: pescar o fabuloso jacaré, que era assim que diziam os moradores, de tão grande, visível, real nas fotos penduradas na banca do Morcego e coladas nos postes das ruas de Monte Sião. As mulheres todas ficaram em casa resguardadas dos perigos, o jacaré era brabo mesmo, melindroso, sabido, tava abusando do povo da Lagoa Dorada, principal, desafiando os Moraes Cardoso, gente de respeito e muita habilidade na caça e pesca, tanto que davam pouso aos caçadores vindo no adjutório. Um jacaré desafiando os Moraes Cardoso nesta altura do campeonato, com toda soma de robôs curiosity, drones e tempos modernos, é demais da conta.

Junto com todos, foi também o Zé Liseo: o Zé Cusaruim, lá dos Francos… – Por que o Zé Liseo veio, povo?, nem pescar ele sabe, perguntou indignado, o Bacaiau. Veio pra contar estórias nas horas de folga, respondeu o Dito da Célia. Xxiiii!…, exclamou o Bacaiau.

E foi, povo batendo a Lagoa Dorada o primeiro dia inteirinho, a gente dos Cardosos pro meio, cartucheira, armadilha, anzol com isca, e bate aqui, e bate ali, e nada, só de madrugada é que se ouvia umas passadas: buum, buum, do bicho, daí os Cardosos gritavam: Vamo, povo, que ele já vem vindo. Mas nada dele dar as caras no rancho…

No outro dia, chuvarada que não puderam sair do rancho, que fazer, seu Cardoso véio? Bão, escreva aí, seu moço escritor, que vamos ficar quietinhos aqui contando estórias dos velhos tempos. E Foi daí que o Zé Liseo ajeitou-se no banco e começou uns causos com sua fala das demais arrastadas: com sua liceeença, cheeefe senhor Moraes Cardooso, que nóis tuudo aqui temo sossegado, chuva Deus tá mandando pra tudo nóis, deixa o bicho lá fora na lagoa que é seu lugar, baam contar uns causos verdadeiros, que, com sua licença, meus causos traiz veerrdade, desde meu véio pai, Liseo Cusaruim, lá do Colomi. Foi nos tempos de pagar promessa pra Santa Nossenhora Aparecida, que fui no meu cavalinho de estimação, não largaava deste pampinha nem pra comer, dava gosto. Cheguei na Santa Igreja, ouvi a missa, fiz tudo nos conformes e peguei caminho de vorta. Saindo da Aparecida, olhei pro fim do estradão, vi que formava um tempão negro, mas neegro meemo… aah, não falei, mas o meu pampinha tinha medo de tempestade… E um café foi servido pela gente dos Moraes Cardoso, umas pigarreadas, bolinhos, enrola e acende cigarros macaios, cuspida… Continue, Zé? Bão, com a permissão, seu Cardoso. Quando meu cavalinho sentiu o chuvão chegando, lançou numa carreera só, trote dos bravos, e a chuva desceu lençor branco de cachoeira, cochando tudo, aí que o pampinha desembestou de verdade, de medo da chuva, trovão, raio, rajada de água querendo chegar, e o cavalinho tro-tro-tro-troteaando, eu sentia só algum vapor da chuva, mas a chuva tava brava que dava meedo, gente, foi daí que olhei pra trais, não é que meu pampinha tava correndo tanto, tanto, que a chuva só chegava na anca do animar, nem no arreio chegou, mais um instante e venceemo a chuvarada, distanciando longe. Parei e pude constatar, que da traseira até perto do arreio tudo ensopado, de onde eu sentava pra frente, nem sinar de chuva… O pampinha venceu a chuva pessoar!… Humm, fez o dono do rancho. Logo, Zé Liseo emendou: com todo respeeito, seu Cardooso, gente de caça e pesca, foi o que foi acontecido, cerrtiinho meemo, como a Santa tá no artar da Aparecida, como da veis… E o cansaço tomou conta do povo, que pararam, e pigarreada, enrola macaio, cuspida, acende cachimbo, toma pinga do Lair, dia passando, chuva lá fora… Conte mais causo pra este serão, Zé… Então, ceis leembra de quando tinha muito cateto, porco do mato na Lagoa Dorada? Lembranças vindo na memória do povo, Cardoso contando de caçada… e o Zé principiou sua fala arrastada de cantada… Com a liceença de todos os Cardoosos, mais companheiraada, eu casado de novo, uma percisãão de tudo, caarrne só de caça, então vim fuçá por estas banda, caçá porco do mato, e perigooso, embrenhei sem medo, que sempre fui muito corajoso, (o finado Cardoso nono, que Deus o tenha, haveera de se alembra se tivesse com nóis), fui entrando, cartucheira armada, mas vai que de repente, me vem na frente um enoorme porco do mato, com dente sartado pra fora de um paarrmo, assim, óó!, veio pra cima de mim que nem tempo de tiro tinha, ah, peguei o bicho na uunha, com a mão esquerda segurei o queixo do cateto, ele esperneando, grunhindo; povo sabe que tenho muita força, e com a direita, dei um soco só, puummm!…, bem na testa…, ah, foi o silêncio, tudo quieto… Fui ver, tinha moíído a cabeça do bicho… Silêncio de ninguém saber o que falar do causo do cristão… (só estas expressões laterais: ootáá, xiii, huumm!…) Bão, d’otra veeis… e a noite começou, chuva lá fora, jacaré acordando, barulhão, e Zé Cusaruim saindo: agoora, meu povo, vô prováá que eu só conto o que vivi. Já-Já trago o bicho pro ceis, porque nesta Lagoa Dorada há sempre de tudo de mil causo acontecido e causo acontecendo, na horiinha meemo… Licença, meu povo…

E o Zé Liseo saiu de cena.

 

2 Respostas

  1. Olá, que lindo o seu trabalho, gostaria de entrar em contato , se possível. Obrigada, Renata Dias (professora).

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