Crônica da Lagoa Dourada: ainda mais mil causos

Crônica da Lagoa Dourada: ainda mais mil causos

 

José Alaercio Zamuner

… e o Zé Liseo, escritor destas crônicas?

Eu tive notícias, ó comandante destas crônicas, que o Zé Liseo sumiu noite adentro atrás do fantástico jacaré, restante do povo no rancho, chuvão lá fora, quando o patrão Moraes Cardoso chama o camarada Tiziu e ordena contação de uns causos, senão, senão… Chuva e gente e rancho, noves fora?, causo e cantoria, meu povo!… Vai, Tiziu, principia uns causos desta Lagoa Dorada! Nhor, sim, meu comandante e compadre, que arrespeito desde o Cardoso avô, dono disso tudo, quando vim lá do Paraguassu, no meio dos camaradas todos… Então, tanto e tudo bem registradinho aqui, ó, nesta cabeça de negro que tenho, cada fio enrolado do meu cabelo, cada vorta, é um causo, sinsenhor… Se alembro de uma feita, tudo na beira da lagoa pescando, as crianças, quando o menino mais novo pega um peixe dorado, se alembra disso?…, saiu reluzindo no ar, de espantar; esta lagoa era uma lagoa quarquer, de então é que passou se chamando Lagoa Dorada. O peixe vem por demais da conta de diferente, inteirinho amarelo, mesmo do oro em metal, metal precioso que é o tal oro nas todas as joias, nem de escama e nem pele real… no fantástico tal metal oro puro mesmo… mas foi só pôr o peixe no samburá que tomou uma cor de esbranquiçada, nunca ninguém tinha visto algo assim, o que era feitiço nas vistas de todos, virou peixe que nem outro quarquer… Foi isso mesmo, Tiziu, me alembro também, aprovo e dou fé… Conta do tatu, então! Com toda permissão, meu patrão, essa foi de esperteza e pândega. Era dia de caçar tatu, bate aqui, bate ali, nosso cachorro Faísca farejou um bicho desse, e sabe como tatu é, quando tá acuado, cava que só. Bicho e cachorro correndo, quando deu na beira da Lagoa, o tatu começou a cavar, foi cavando, cavando, o cachorro foi atrás, entrou no buraco, tatu na frente, cachorro atrás, de repente os dois despontaram do outro lado da lagoa, e desembestaram pasto afora sumidos. No outro dia, aparece o Faísca sem o tatu, mas com um belo peixe, de quilos, na boca, acho que era pra não desapontar o patrão. Bom… E o cansaço tomou conta do povo, que tomaram café, acenderam seus macaios, pigarrearam, cuspiram… Continue, Tiziu. Se o patrão me permite, coisa espantosa se deu da vez de entregar boi de corte em Santa Rita, povo. Todo mundo se alembra que foi isso mesmo. Escute só… Vaqueiros, eu pro meio, patrão, tudo indo que indo, tinha que atravessar um rio que se dizia ter piranha, nunca que tinha piranha por estas bandas, mas, quando povo fala, é o certo: se não tem, passa a ter. Chegado na beira do São João, daí, pra atravessar veio preocupação com a tal da piranha, até aqui era só prosa escutada do povo que viaja lá pro Mato Grosso, mas, como se diz, viagem pra frente que o tempo empurra a gente; aí que veio o resultado do outro mundo, não é meu patrão, seu Cardoso? Até nem gosto de contar este caso de verdade… Foi que, boiada n’água, patas e patas remando: ló, ló, ló… puxando água, bois todos com a cabeça de fora, mas lá da guia inicia uma mancha vermelha n’água, boiadeiros pegando na reza santa, tangendo mais ainda os bois, mancha vermelha mais forte, até que chega do outro lado com a boiada: espanto de horrível mistério, meu povo, espanto de horrível mistério meu povo… nem gosto de se alembrar e contar: foi que, não foi patrão?, o primeiro boi tava com a metade, com a metade do corpo todo comido pelas piranhas, só o patrão aqui na testemunha, que viveu certinho, para sustentar minha prosa: teve de sacrificar o animal na hora. Não é não, meu patrão Moraes Cardoso? Sim, mesmo assim, Tiziu! Povo quieto, sem nenhum pra desaprovar o causo do Tiziu, todos sabendo dos juízos do Cardoso, dono do Rancho, tão suspenso no ar os ânimos, que nem mosca voava. Tempo parado… Daí, patrão Cardoso pede moda de viola, pra desanuviar o rancho, que o Dito Godói, mais Genso, pegaram a cantar suas modas, e cantando, e as noites passando, emendando com os dias… Foi o cansaço e alcançou o povo do rancho, pinga, café, macaio, pigarreada, e conta, Tiziu!, com a permissão do patrão… Dia passando, parece que o chuvão ainda tava lá fora, mais causos, mais violas, dia passando, acho que chove muito lá fora, mas ninguém escutava mais nada, só os causos do Tiziu, que vez e outra, suspirava, cansaço chegava, povo pedindo, de caçadas mil, pescaria, de lutas, de farras no Paieiro e outras  bandalheiras, mais boiadas por este mundão afora, dia passando… Zé Cusaruim sumido…

De repente, entra o Zé Liseo com uma coisa nas costas, feia, vermelha inteirinha, coisa sem parecer, mais de 8 metros, enorme, bola de sangue pingando no chão do rancho, o que é isso, Zé Cusaruim?

’Ceis fica só aí nos caausos e não vê o mundo andaar, povo! Bãão, tava na lagoa suziinho de tudo, só eu e Deus, e o jacaré deste serão todo veio, mas veeio com a boca de mais de doois metros de aberrtuura, pra me engolir, nem olhei, enfiei a mão pela boca do danado que fui pegar o raabo do bicho, segurei e dei um puxão fiirrme pra trás… mas foi taanta força que virei o jacaré no avesso… risos, risos, de pouco-caso e indignação. Então meu povo, pra não acontecer esse pouco-caso dos ’ceis que estou sentindo, e parecer inté mentira, táá ’quii, óó, o bicho no avesso pra prováá!… e sai do meu pé, jacaré, que eu só conto a verdade dos causos, desde meu véio pai Liseo: o Liseo Cusaruim…

 

E acabou assim o serão de causos, escritor destas crônicas?

 

Não, ó comandante destas crônicas, tem mais, agora escrevo que aparecem as mulheres nesta estória… Sim, num repente, entram as mulheres dos Cardosos, dos parentes e dos visitantes assustadas, bravas, dizendo que a chuva já tinha passado há dois dias, clareou, escureceu, tornou… e vocês tão ainda aí contando mentira, gente. Já era hora de estarem todos na lida, vamos povo de homens sem préstimos! Foi que o Cardoso véio se levantou, deu voz de seriedade ao rancho, e mandou ordem, peremptória: povo, vamo prová pra esta muiérada que este serão de causos tem validade e préstimo, sim. Quero todo mundo pro armoço: já tem os bifes do boi: metade comido pela piranhas e sacrificado pelos vaqueiros, já tem o peixe que o cachorro Faísca trouxe, e mais, e muito mais; pego no muque nesta horinha e virado no avesso, o fabuloso jacaré do Zé Cusaruim. Vão preparando tudo que tenho de despachar umas ordens, que hoje o armoço é nos moldes de fartos arrotos, preparado pelos homens deste rancho desta famosa Lagoa Dorada!

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