Crônica dos Lima: os Sibirinos e o tempo

Crônica dos Lima: os Sibirinos e o tempo

José Alaercio Zamuner

Esta crônica ocorre lá nos Lima: lugar e tempo quase escapando de Monte Sião.

A família foi chegando na casa do curandeiro Sibirino, filho da Dona Sibila dos tempos antigos, de tão antigos que ninguém não consegue falar mais desta linhagem de gente, pois o próprio Sibirino de hoje é um espectro de acumulados anos, por isso figura um tanto estranho ao povo, que o respeita, teme e pouco dirigi-lhe a palavra, só mesmo chega em sua frente e pergunta o bastável, depois deixa o filho destes tempos antigos falar. E sua fala soa como a de um bruxo.

Foi o ocorrido que esta crônica relata pra todos conhecerem as forças que existem escondidas no ar e regendo cada um de nós, e não podemos ver, só este Sibirino velho e filho herdeiro dos tempos dos Sibirin­­ada de Monte Sião. Observe que a família continua chegando, pai, mãe e uma filha, esta, beirando seus quinze anos, trazida segura pela mão, que andava com pálida força, quase sem nada nos ossos, quase carregada pelos pais; que iam chegando para perguntar-lhe sobre o destino da menina… É fim de ano!

Chegando estavam… e lá na outra extremidade do terreiro, sentado num cepo, Sibirino segurava com as mãos, uma em cada extremidade, um gomo de bambu, levantava-o ao nível dos seus olhos, ao nível do céu, ao nível do tempo, olhava, olhava seu aparelho todo perfurado como uma flauta, e pelos seus furos transpassa luz dos raios do sol de um fim de dezembro de 2015. Pelos mesmos furos seu olhar ganhava os ares do céu. A família já em sua volta, mas o filho de Dona Sibila ainda olhando firme o céu por entre seu bambu-caleidoscópio, nada de resposta, quieto ele estava, ­olhando firme… De repente, um sinal com­­­ a mão direita, pede atenção, como se estivesse frente a um público de mil pessoas. Silêncio!… “São recados do tempo”.

Silêncio!…

– O que que ela tem, senhor dos tempos?

A menina Jéssica foi ficando fraca, pálida que nem comer, beber; nem correr e brincar pode mais, anda perdendo toda força de seu corpo, sua pele, senhor, aqui no pescoço, puxou pro roxo que desce devagar, a cada dia, pro resto do corpo… Silêncio!…

Vem fala flácida da menina:

Pai, fala pra ele que todo dia desce uma forte mão em meu corpo, me empurra pro chão, sinto pressão e peso nos meus pés, esta mão aperta muito, faz ferida, pai. Pai, pede pra ele tirar a força desta mão vindo agora em mim que enferruja minha carne. Pai, dói muito a força desta mão, pede remédio, pai!

O Sibirino tirou os olhos do gomo de bambu, olhou fixo pros consulentes, olhos alaranjados que mais pareciam dois sóis em crepúsculo, e pronunciou:

…que a menina Jéssica pegou o mal do tempo, e ele anuncia, aqui, que pele e carne da menina ou de outros tantos lhe fazem muito bem, renovam suas forças, a cada ano ele precisa de mais matéria. Não se pode ver nada de cura nestes espectros de luz, somente sua força, que ofusca. Pode tapear o tempo um pouco, porém é muito melindroso, anda extremo nos disfarces de antigo e jovem, mas o certo mesmo é que o tempo eterna sempre novo, novinho, forte e vigoroso de tanto consumir suas criaturas todas, aprendi isso com minha mãe Sibila: o tempo, minha filha, gasta a gente, cria e corrói, cria e mata, o aço vira pó na poderosa mão do tempo. Nada é inoxidável aos seus filhos com os anos que passam. O tempo é uma máquina de bajular e enganar, produzir júbilo e mágoa! Nunca ninguém está novo pra ele, só ele, minha filha, anda sempre igual: volátil e vigoroso, mais além, sempre na flor da idade por milênios afora… Mas vou passar remédio para tapeá-lo um pouco até que descubra essa nossa conversa: tome banho e beberagem de: arruda, losna, funcho, sete-sangria, sal grosso, chapéu-de-couro, olho-de-boi, rezas, cruzes, promessas, romarias, Santos poderosos, Orixás: pede clemência ao velho Omulu, que varra suas chagas!!… Tome, pode aliviar o peso do tempo nas suas feridas.

A família ouviu muito bem o recado do Sibirino, foi saindo num vagar cuidadoso, sem bulha para não despertar o tempo que descia mais um dia lá pra banda do Grotão, lançando um vermelhidão meio sangue no céu. Segue a família quieta, sem alarde nem coragem nos passos palmilhados naquele chão de só pedregulho, que não evitava em emitir um ruído surdo e chocho, o horizonte seguia tingido de vermelhidão, agora caindo pro negro. E aquele dia ia acabar, por certo, em noite naqueles céus dos Lima. Até parece que engolido pelas cavernas do Morro Pelado.

Mas quase já pisando no pedregulho da estradinha, pôde-se ouvir do velho Sibirino:

Um feliz 2016 a todos, meus filhos!

Anúncios

Crônica da Guardinha: o mistério do Ipê Amarelo

Crônica da Guardinha: o mistério do Ipê Amarelo
José Alaercio Zamuner
Neste ano de 2015, bem quando chegou agosto, um Pé de Ipê amarelo abre suas flores em redoma lá da Guardinha, de roubar todos os olhares, e vai espalhando até Bueno Brandão, Socorro, vorteando por Lindoia, Águas, Itapira, Jacutinga, Ouro Fino… nenhum ninguém escapando da curva geodésica indo unindo todos os olhares dos mais de mil poetas colibris, beija-flores, cuitelinhos, sebinhos, fifis, tiês, saíras, bilhians abelhinhas de todas as criaturinhas. Flores e mais flores cobrindo a Guardinha inteira e adjacência. Árvore antiga esta, subindo alto ao céu, mas que só agora chovendo mistério dessa forma…
…Não, não, narrador desta crônica, não é de agora, não, é de há muito tempo, irrompeu um imprevisto de meninazinha com lições firmes e brava nos olhares indignados a um público atônito no hall da igreja, após a celebração. A reza era para sarar o espanto do povo todo e livrá-los do encanto daquele Pé de Ipê e seus visitantes de bichinhos e gente poeta ignotos que vinham aos montes em romarias à Guardinha. Este Ipê vem comigo desde tempos do Pelegrino Tortelli, pare e repare e deixe o tempo existir solto só por si em êxtase, é feitiço nenhum, não, povo, só encanto suave de durável instante… vem, deite-se folgado aqui…
neste relvado ao Pé do Ipê Florido, olhe quanta vida em flor primor, sinta a dança das pétalas no ar encantando os bichinhos todos, repare no por trás das coisas neste toldo amarelo de cada flor e cheiro, vá nos olhares pro céu azul de tons mesclantes, perceba cada mínimo inseto chegando, olhe lá as abelhinhas e quantas mil minúsculas mandaçainhas e tipos infinitos de bicos colibris recitando voo para uma chuva de pólen e pétalas amarelas descendo cobertor, forrando nossas almas estendidas neste relvado, deixe, deixe todas descerem mel para as todas alegrias elevarem com os bichinhos num canto uníssono a este Ipê Florido da Guardinha. Recite:

Ipê Florido

Floriu Ipê bem uno!!…
Acordou meu olhar,
Voltar lá para donde
Campos de memorar:

São buquês deste Ipê,
Com mil-flor beija-flor:
Laços lagos: espelhos…
Destes olhos primor.

Vaguei por crua vida.
Mares, montes cruzei.
Não vi Ipê tão florido
Des’ que em ti avistei.

Meu riso é dos Tiés,
Nestes galhos Ipês…
Zumbindo bato asas,
Pairo pasmo em brasas…

Quem dera vida inteira,
Cintilar nestes cachos:
Olhos-flor; bicos-co-
Libris: sorver-lhe a seiva

Por muito além das eras!…
Pois este Ipê florido
Traz vida, chão à vera…
Pelos tempos ungidos.

Num instante, todos estavam em sonho profundo, deitados e entrelaçados nos dedos e mãos e céu e relvado e ao Pé do Ipê florido. Horas passando até quando despertaram e já tinham de voltar pra suas casas, após alguns dias e noites. O mistério de meninazinha havia sumido, rápido como aparecem e somem aquelas flores e pétalas e pólen. E agora, após a lição, restava ao povo aguardar ansiosos a próxima florada do Pé de Ipê amarelo da Guardinha.