Crônica da Guardinha: o mistério do Ipê Amarelo

Crônica da Guardinha: o mistério do Ipê Amarelo
José Alaercio Zamuner
Neste ano de 2015, bem quando chegou agosto, um Pé de Ipê amarelo abre suas flores em redoma lá da Guardinha, de roubar todos os olhares, e vai espalhando até Bueno Brandão, Socorro, vorteando por Lindoia, Águas, Itapira, Jacutinga, Ouro Fino… nenhum ninguém escapando da curva geodésica indo unindo todos os olhares dos mais de mil poetas colibris, beija-flores, cuitelinhos, sebinhos, fifis, tiês, saíras, bilhians abelhinhas de todas as criaturinhas. Flores e mais flores cobrindo a Guardinha inteira e adjacência. Árvore antiga esta, subindo alto ao céu, mas que só agora chovendo mistério dessa forma…
…Não, não, narrador desta crônica, não é de agora, não, é de há muito tempo, irrompeu um imprevisto de meninazinha com lições firmes e brava nos olhares indignados a um público atônito no hall da igreja, após a celebração. A reza era para sarar o espanto do povo todo e livrá-los do encanto daquele Pé de Ipê e seus visitantes de bichinhos e gente poeta ignotos que vinham aos montes em romarias à Guardinha. Este Ipê vem comigo desde tempos do Pelegrino Tortelli, pare e repare e deixe o tempo existir solto só por si em êxtase, é feitiço nenhum, não, povo, só encanto suave de durável instante… vem, deite-se folgado aqui…
neste relvado ao Pé do Ipê Florido, olhe quanta vida em flor primor, sinta a dança das pétalas no ar encantando os bichinhos todos, repare no por trás das coisas neste toldo amarelo de cada flor e cheiro, vá nos olhares pro céu azul de tons mesclantes, perceba cada mínimo inseto chegando, olhe lá as abelhinhas e quantas mil minúsculas mandaçainhas e tipos infinitos de bicos colibris recitando voo para uma chuva de pólen e pétalas amarelas descendo cobertor, forrando nossas almas estendidas neste relvado, deixe, deixe todas descerem mel para as todas alegrias elevarem com os bichinhos num canto uníssono a este Ipê Florido da Guardinha. Recite:

Ipê Florido

Floriu Ipê bem uno!!…
Acordou meu olhar,
Voltar lá para donde
Campos de memorar:

São buquês deste Ipê,
Com mil-flor beija-flor:
Laços lagos: espelhos…
Destes olhos primor.

Vaguei por crua vida.
Mares, montes cruzei.
Não vi Ipê tão florido
Des’ que em ti avistei.

Meu riso é dos Tiés,
Nestes galhos Ipês…
Zumbindo bato asas,
Pairo pasmo em brasas…

Quem dera vida inteira,
Cintilar nestes cachos:
Olhos-flor; bicos-co-
Libris: sorver-lhe a seiva

Por muito além das eras!…
Pois este Ipê florido
Traz vida, chão à vera…
Pelos tempos ungidos.

Num instante, todos estavam em sonho profundo, deitados e entrelaçados nos dedos e mãos e céu e relvado e ao Pé do Ipê florido. Horas passando até quando despertaram e já tinham de voltar pra suas casas, após alguns dias e noites. O mistério de meninazinha havia sumido, rápido como aparecem e somem aquelas flores e pétalas e pólen. E agora, após a lição, restava ao povo aguardar ansiosos a próxima florada do Pé de Ipê amarelo da Guardinha.

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