Crônica do Morro Pelado: ondas gravitacionais no céu

Crônica do Morro Pelado: ondas gravitacionais no céu

José Alaercio Zamuner

Cientistas detectaram ondas gravitacionais que passam voando pelo cosmos vindas de bilhão de anos-luz, vêm varrendo o céu por entre galáxias, estrelas, atropelam quasares, fuçam planetas, fuçam lugarejos desequilibrados e deixam um rastro de zunidos por onde passam, nada escapa, e tudo de crônica fica armazenado em arquivos magnéticos no seu interior, e vão indo simbora por este mundão afora de meu Deus. Não adianta pedir atenuantes, esconder-se, maquiar o malfeito. Inclementes, os zunidos capturam imagens: nobres ou pífias, e denunciam suas verdadeiras qualidades emitindo diferentes zumbidos. Os cientistas dizem que essas ondas cósmicas podem ser as guardiãs do universo, devem de ser; não, são as guardiães, mas não falsos guardiões como os nossos, nos exemplos destes governos de palanque, apoiados por Vale do Rio Doce, saqueadores de Merenda Escolar, do erário público: ditos donos de um rincão à revelia.

Outro fato que merece notícia neste relato, verdadeiro, ocular, é que um alvoroço entre os poetas e violeiros de Cantare vem acontecendo nestes últimos meses. A razão, bem local, nada de anos-luz, foi que essa gente nefelibata, de cuca-fresca mesmo, constatou uma cratera: erosão enorme no dorso do Morro Pelado, a gente podia sentir um gemer de dor quando nos dias de sol arregalado, porque a ferida abria-se mais exposta para quem trafega frente à Fazenda Arco-Íris, passando pelo Satirada, os Boavas. Dali, dá pra ver direitinho esta mancha viva em forma de uma nesga de sangue correndo desfiladeiro abaixo, sangue jorrando o visível que desce e atinge nossos poetas e violeiros de imaginação cósmica, e não suportando tal cenário de sangue, dor e quase gemidos, saíram gritando, cantando e tocando suas violas, sanfonas, flautas, clamando aos céus que venham todos os Deuses do cosmos inteiro e de lá de debaixo das placas tectônicas, de lá do fundo das cavernas do nosso Morro Pelado… cantando cantavam Cora Coralina, Quaia, Zé Paulo, Toninho Guireli, Popo, Ivan, João Gibão, violas enluaradas de Jonas e Diego: Pascoal Andreta!… Venham, venham céus, Deuses de qualquer canto do cosmos, que gente nefasta sangra o nosso sagrado Morro Pelado, sangra o sangue que desce um vermelho viscoso correndo ladeira abaixo, chega nas casa, entope suas cavernas, assustam seus entes moradores: a mãe do ouro, a mula sem cabeça, o curupira, o saci, as naves espaciais: o túnel que vai dar lá em Machu Picchu, todos coagulados pelo sangue desta brutal nesga erosão! Venham Deuses deste nosso cosmos, socorro!… o nosso Morro Pelado está sangrando, sangrando, sang!…

É o que este relato traz de pura verdade, nada de fantasia, porque uma crônica relata sempre o real frente às vistas do cronista. Então, por estes dias foi o que qualquer um ouvia, e causou muita comoção e espanto aos moradores de Cantare. O que vale é que o canto dos nossos poetas zumbiu aos céus, ficou pairado zunindo que nem em enxame de abelha: sangue jorrando, canto cantando majestoso, firme, não se diferenciava voz dos poetas de sons dos instrumentos, tudo num uníssono zumbindo-tudo num uníssono zunindo, zunindo nuvens no topo do Morro Pelado, que dava pra ver uma enorme onda de ar vibrando zu-zu-zuumbidos de vozes poéticas zunindo clamor para que aquele sangue descendo fosse estancado. Nada de cura ainda. Olhando lá do Tonico Satiro, a ferida viva escorre seu tanto de sangue. Mas, mais viva está a força dos poetas cantando e tocando sem parar. Foi tanta força gravitacional por tanto tempo que a onda de cantos-zumbidos subiu vertical além acima de tudo quanto é céu de Cantare. Subiu sumindo, mas deixou sinais de ondas em forma de nuvens de um roxo meio esverdeado cobrindo o dorso do Morro… Os poetas permaneceram onde estavam, observando, zumbindo canto adágio.

Dias passando e os poetas não arredando pé do Satirada, a nesga de sangue lá, bem visível pra qualquer um ver, da mesma forma o círculo de nuvens formado pelos cantos dos poetas… De repente aparecem as ondas gravitacionais, anunciadas pelos cientistas, vinham em Cavalaria de Carlos Magno galopando pela tábua gelatinosa do espaço-tempo num zuum-zuum-zumbido… gravitando vórtice violento que cobriu o topo e o Morro inteirinho, qualquer um de Cantare se apavorou, pergunte pro Luiz d’Isaías, porque o dia virou tremenda noite, toda força do universo pairava ali, na soma com os poetas vibrando intenso canto maior. Três dias foi o que durou isso, vozes e ondas cósmicas, zum-zumbindo zunidos…

O escuro daqueles dias sustentou um temporal de raios, trovões e tromba d’água, quase que as águas escalaram aquelas encostas das terras d’Leta. Quando amanheceu, tudo estava claro de anil, o topo do Morro Pelado limpo de toda tranqueira sombria, tinha que ver!: antenas, radares, bases de asa delta, estacionamento para casais libidinosos, motéis, hotéis dependurados em suas grotas; a nesga de sangue… tudo limpo, tudo varrido e carregado pelas ondas gravitacionais para…, dizem nossos poetas, vão despejar no próximo buraco negro nos confins do universo, onde tudo vira luz novamente, pois estas ondas, pode acreditar!, são mesmo as guardiãs da vida no cosmos, guardiãs de bilhões anos que sempre limpa todo o mal deste imenso palco cósmico em que vivemos:

E desde sempre é o que os poetas gostam de dizer, e disseram: tudo fica bem quando tudo acaba bem!

Crônica do Paiol Barreado: novos tempos

Crônica do Paiol Barreado: novos tempos

José Alaercio Zamuner

A família vai deixando a Batinga, a fazenda fechou-lhes as portas de seca que estavam as roças, as esperanças, restando somente pai e filhos e uma estrada longa pro ano que se iniciaria, até o pé do Morro Pelado, onde tudo em volta, se dizia, pedindo lavoura, pedindo enxada, pedindo alimento. Os braços do pai; pedindo labuta. Os olhos; pedindo horizonte depois de tanto infortúnio. Mas um roceiro nunca se espanta, porque sabe que a vida sempre renasce de um recomeço vigoroso na bruta força das próprias cinzas, tal e qual um capim após a queimada.

Os fogos de rojão explodiram aquele céu de ano velho e brilharam os dias vindouros, as crianças alheias a tudo e como sempre brincam, os cachorros uivam com suas dores nos ouvidos das explosões do novo dia, das novas horas que puxam, decerto, as novas esperanças de um renascer alimento em um grande paiol de madeira de lei para as colheitas que virão: as cabras, as porquinhas, as vaquinhas, todas prenhes de novos dias, o pai olhando o todo em volta, capim crescendo com as grandes chuvas: da fina, da grossa para lavrar os ares…, tudo certo, tudo de ontem pra trás, na força do tempo que não para na curva esperando ninguém, segue reto pra frente que detrás vem vindo muito mais gente, então, reze pra este ano que há de ser bom, muito bom, filhos. O carpinteiro Joanim Geciani já é vem aí cortar só madeira pereira que dura o durável dos anos na construção do grande paiol que as colheitas deste e sempre ano novo há de vir, olhe, aí vem o Mingo Deseró preparar a parreira de uva, vem também o Nenê tropeiro com os laminados de café, vem aí o Satiro com o arado e arar toda a terra, o Dito Tropeiro faz os jacás para as colheitas, o sanfoneiro, ô!… sanfoneiro Bazzani, traz o sempre melodioso ritmo dos trabalhos em construção: da serra-serra madeira serrando, dos martelos bate que batendo os pregos, dos bezerros chamando mamãe, de todo canto do povo e dos bichos. Vem aí…

Amanhecer, e amanheceu lindo dia após semanas de intensas chuvas, graças a Deus… E os homens num vai-e-vem de levantar o paiol, madeira cortada, esteios, vigas, tesouras aéreas, caibros, rolos de sapé subindo à cobertura, taquara traçando as suas paredes de receber o barro, o barro que as crianças e moças e moços pisam com fortes e saudáveis pés água e terra e palha na mistura de fazer grandes bolas de argila, depois cada qual de seu lado, ao mesmo tempo, bate batendo nas tranças de madeira e taquara, que o paiol quer escalar aquele céu sagrado e receber todo o mantimento, vamos!…, suprir os seres que têm fome, fome de vida, fome de bom tempo, fome de bom ano. Pronto! Mas antes, mestre Joanim ensinou que carecia barrear tudo com batinga, deixar branquinho, que é a cor de um lugar que guarda vida, luz e ano bom. Então juntou o povo das vizinhanças: mulheres, crianças, homens e foram buscar batinga, tabatinga, que tinha lá longe na própria Batinga de Baixo, juntas de bois, tropa de burros, homens, todos trazendo o barro branco, a tabatinga. Passaram dois dias trazendo o barro branco, dois dias barroteando o paiol, e tudo ficou branco de pronto, agora sim, e o Paiol ergueu-se espantoso do meio daqueles morros, despontou pulsando linda luz, como fogos dos rojões, para aquele ano que começava esperança de guardar todo o alimento do mundo: pros homens e pros bichinhos. Mestre Joanim subiu no eitão de sua obra e gritou: este é o melhor Paiol Barreado do mundo!

O pai, orgulhoso e agradecido da obra assim ordenou:

– Venha, meu povo, vamos cear agora à beira deste Paiol Barreado, que traz luz

de alimento a todos!

O ano novo havia começado.