Crônica do Paiol Barreado: novos tempos

Crônica do Paiol Barreado: novos tempos

José Alaercio Zamuner

A família vai deixando a Batinga, a fazenda fechou-lhes as portas de seca que estavam as roças, as esperanças, restando somente pai e filhos e uma estrada longa pro ano que se iniciaria, até o pé do Morro Pelado, onde tudo em volta, se dizia, pedindo lavoura, pedindo enxada, pedindo alimento. Os braços do pai; pedindo labuta. Os olhos; pedindo horizonte depois de tanto infortúnio. Mas um roceiro nunca se espanta, porque sabe que a vida sempre renasce de um recomeço vigoroso na bruta força das próprias cinzas, tal e qual um capim após a queimada.

Os fogos de rojão explodiram aquele céu de ano velho e brilharam os dias vindouros, as crianças alheias a tudo e como sempre brincam, os cachorros uivam com suas dores nos ouvidos das explosões do novo dia, das novas horas que puxam, decerto, as novas esperanças de um renascer alimento em um grande paiol de madeira de lei para as colheitas que virão: as cabras, as porquinhas, as vaquinhas, todas prenhes de novos dias, o pai olhando o todo em volta, capim crescendo com as grandes chuvas: da fina, da grossa para lavrar os ares…, tudo certo, tudo de ontem pra trás, na força do tempo que não para na curva esperando ninguém, segue reto pra frente que detrás vem vindo muito mais gente, então, reze pra este ano que há de ser bom, muito bom, filhos. O carpinteiro Joanim Geciani já é vem aí cortar só madeira pereira que dura o durável dos anos na construção do grande paiol que as colheitas deste e sempre ano novo há de vir, olhe, aí vem o Mingo Deseró preparar a parreira de uva, vem também o Nenê tropeiro com os laminados de café, vem aí o Satiro com o arado e arar toda a terra, o Dito Tropeiro faz os jacás para as colheitas, o sanfoneiro, ô!… sanfoneiro Bazzani, traz o sempre melodioso ritmo dos trabalhos em construção: da serra-serra madeira serrando, dos martelos bate que batendo os pregos, dos bezerros chamando mamãe, de todo canto do povo e dos bichos. Vem aí…

Amanhecer, e amanheceu lindo dia após semanas de intensas chuvas, graças a Deus… E os homens num vai-e-vem de levantar o paiol, madeira cortada, esteios, vigas, tesouras aéreas, caibros, rolos de sapé subindo à cobertura, taquara traçando as suas paredes de receber o barro, o barro que as crianças e moças e moços pisam com fortes e saudáveis pés água e terra e palha na mistura de fazer grandes bolas de argila, depois cada qual de seu lado, ao mesmo tempo, bate batendo nas tranças de madeira e taquara, que o paiol quer escalar aquele céu sagrado e receber todo o mantimento, vamos!…, suprir os seres que têm fome, fome de vida, fome de bom tempo, fome de bom ano. Pronto! Mas antes, mestre Joanim ensinou que carecia barrear tudo com batinga, deixar branquinho, que é a cor de um lugar que guarda vida, luz e ano bom. Então juntou o povo das vizinhanças: mulheres, crianças, homens e foram buscar batinga, tabatinga, que tinha lá longe na própria Batinga de Baixo, juntas de bois, tropa de burros, homens, todos trazendo o barro branco, a tabatinga. Passaram dois dias trazendo o barro branco, dois dias barroteando o paiol, e tudo ficou branco de pronto, agora sim, e o Paiol ergueu-se espantoso do meio daqueles morros, despontou pulsando linda luz, como fogos dos rojões, para aquele ano que começava esperança de guardar todo o alimento do mundo: pros homens e pros bichinhos. Mestre Joanim subiu no eitão de sua obra e gritou: este é o melhor Paiol Barreado do mundo!

O pai, orgulhoso e agradecido da obra assim ordenou:

– Venha, meu povo, vamos cear agora à beira deste Paiol Barreado, que traz luz

de alimento a todos!

O ano novo havia começado.

 

 

 

 

 

 

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