Crônica do Morro do Macaco: o ar é massa movediça

Crônica do Morro do Macaco: o ar é massa movediça
Foi bastante assustador para o grupo do cronista Brancaleone a evolução deste relato, cujo propósito era só desvendar e instantaneamente relatar o que acontecia no Morro do Macaco.
De muito tempo o povo sabia que lá havia ar, depois terra e lá embaixo a água do corguinho correndo, e árvores de vários verdes cobrindo tudo. Assim de longe é o que se podia ver nas vistas de qualquer um. Mas, dizem, as entranhas deste morro vêm vivas desde quando nem era lugar de um nome, quando nesse tempo era tudo só o que era, esbanjando o orgulho de só ser. Com últimos acontecimentos estrambólicos, digo, ventos espessos e visíveis luzes arco-íris, parece que as coisas agora querem mudar, re-voltar para o que sempre fora de só ser nos princípios dos cafundós dos tempos; antes de Judas.
Tá complicado? Este relato de crônica quase põe tudo a pratos limpos, é que pratos faltaram para transformar aqueles eventos em fatos.
Um: Autoridades decretaram ordens para investigação. Chamar quem, gente escolada pra isso de acontecimento? Ah! pode ser essa gente desocupada que vive nos bares em pleno dia de trabalho, porque o restante de nosso povo, trabalhadores sim senhor, tavam era lapidando seus perfis de gente, muito ocupados com negócios, com suas máquinas tricolândias, com seus comércios e gráficos, arrancando os cabelos por conta da mercadoria chinesa instalada nas redondezas, perda de clientes, lojas no clamor de falência e muitos outros eteceteras que não cabem aqui. Deste jeito, decisão de mandados das autoridades para só convocar casta de desocupados: um tal cronista Brancaleone, mais andantes, biscateiros, cachaceiros, mentirosos, jogadores de truco na urgência de seguir aquele pulsar intermitente de luzes que tomava todo o Morro do Macaco naquelas noites inteirinhas, e mais ainda nesta quaresma, o que perturbava muito o povo.
Dois: Então, grupo Brancaleone formado, era a sexta-feira que antecede o domingo de ramos, todos na escadaria da Matriz prontos pra saída, nenhum familiar de nenhum deles por ali… parcas ferramentas: facão sego de seu corte, lápis de pedreiro, bloco de papel, nem nada para fotos havia, e assim marchou o grupo rumo ao pulsar de luzes que aparecia toda noite. Nada a perder, eram só desocupados nesta tarefa. Saíram subindo a mata estranha de tão fechada de galhos cruzados cruzando dedos dos ramos, o que se pode ler, hoje, nestes garranchos, as folhas sombreando tudo em túnel por debaixo tapando o sol e trilhas. Um; o Zé Cutuba, fez corte de facão num galho sassafrás; voz, sangue e cheiro no ar: Aaiii! O Brais, que isso? So eu não sô! Do nada formou imagem de uma jaguatirica, assim, sinal de vento opaco nas folhas, o ar espesso se mexendo, e o animal bem devagar aparece… frente aos desbravadores, lascou pergunta de uma aérea voz sonolenta: o que é, o que é: tem cabeça mas não pensa, quer ser mas não é? Num sei não, sô, disse o Dito-boca-torta. Quando voltou olhar, o animal virou maça de ar espessa nas folhas balançando, acho que era escuro, e luzes saindo por entre poros da terra, dava pra ver filetes arco-íris subindo: escreve esse trem aí, o Brancaleone!, alguém disse. Tô anotando, uai!, mas tem muita coisa vindo, tudo atrapalhado nestes galhos contorcidos de agarrar gentes num passo de minuto e viu-se visão de muitas cores subindo filetes de formar redoma pulsante no ar das copas das árvores… (‘pera, ‘pera aí, tô anotando!). Um saá desce, anda nos dois pés, passos largos: Seus tonto, seus tonto, neste ar aqui, cheio de luzes, é pensar que tudo torna forma nas vistas… Ar espesso movendo folhas, a jaguatirica se fez corpo, mas bem devagar, começando pela cabeça até o final do rabo. Mais bichos chegando… Bicho, não!, escreve direito aí, sô, seres de prazeres; que um tatu brotou de sua toca já falando. Do lado esquerdo, havia um canário estralando de contente, chamando todos os seres da mata para o tribunal ao pé do fogo arco-íris serpente saindo dos poros da terra. Pluc, pula vida quati: você, você gosta de tudo que tem ou tudo que tem você gosta? Você pensa em tudo que fala ou fala tudo que pensa? Ummm, pois aqui um fala tudo que pensa! E escreva aí, seu tonto. Vai, sobe nesta copa de pariparoba e faz o som da voz…
Três: Ainda bem que companheiro de cachaceiro é cachaça, o Cou Cusaruim pensou assim e já deu uma golada braba da Moreninha, Ôô caninha!!, passou pro Biju, outra golada, rodou pro Negão-Sordado, mais goladas de outros Bracaleones em tempo de minuto seus miolos bamboleavam bambolê na cabeça de pulsar cores Arco-íris, agora sim!…, sobem o morro um tanto de gente lá da vila dos pés juntos… andando, pedaços de roupa dependurados, tortos, eretos, carne putrefata caindo dos ossos, mas sem cheiro nas caveiras.
Vai, cronista, escreve isso tudo aí! Não dá, tudo muito rápido e fugido, aparece desaparecendo neste papel acabando. Pense! Pense!… O lápis escorregou numa lâmina com o balanço espesso do ar, mais cenas brotam…
Quatro: Blem-blem, blem-blem…, mas antes, naquela madrugada, os mortos bem acomodados em suas campas, blem-blem… porque era Domingo de Ramos, e alguém lá na igreja ligou o som digital de um pen-drive para essas badaladas do sino. Ainda, veio o quati e lascou a pergunta: Você gosta do que tem ou tem o que você gosta?
Cinco: Última visagem. Estranha luz de arco-íris dissipando, entes sumindo, ar espesso subindo, junto, clarão de um dia de sol tomando conta, tudo isso após as badaladas do pen-drive da Matriz anunciando que era domingo de Ramos.
Mas, você gosta de tudo que tem ou tem tudo que você gosta? – insiste o coelho de Alice, que não tinha entrado na crônica.
J.A.Z.

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