Crônica do Paiero: o paiero está vivo

Crônica do Paiero: o paiero está vivo

 

“Cê ganha o que a Luzia ganhou atrás da horta!”, lembra-se disso?

Esta crônica transita entre o presente e o passado, entre o óbvio e o óbvio dos tempos, além, justifica para si seu fundamento atemporal que paira suspenso nos ares de qualquer lugar, das cidadezinhas às megalópoles: o paiero está vivo.

Assim sendo, sem tanta poesia, este enredo sai em busca daquelas vozes; hoje, soltas no vento pedindo cenas, atores e um autor para o chiste: “Cê ganha o que a Luzia ganhou atrás da horta!”

É de se lembrar o tempo de quando os prostíbulos tinham a função de escola e circo aos cidadãos, enquanto, é claro, as prostitutas, o ganha pão! Em Monte Sião, o lugar reservado às Damas ficava num alto (hoje, por perto do asilo, endereço de algumas moças daquela época), lugar de saída da cidade, meio nas grotas, dependurado em íngremes terras. As casinhas de sapé amontoadas, margeando a estradinha, lugar meio escondido, sendo por isso dificultoso um ver o outro um da cidade que pra lá subia esgueirando-se, até em pontas de pés, se enfiando por entre um labirinto perigoso de palha na busca (escolas, para muitos) de circo, muito dengo, cafunés, mãos, dedos libidinosos, escorrendo corpo abaixo, e apertos, beijos penetrantes sem um qualquer pudor, porque naquele sapezeiro (ou paiero) o homem se formava inteiro, ali se vivia lascivo e esgarçado das regras, nos limites daqueles momentos nas mãos de Laza Paca, Pomba Loca, Chica Cusaruim, Dita Careaçu, Lora-de-Pouso-Alegre, e linhagem de Luzias… Vale registrar que a Dama das Damas era a Luziona. Ela cuidava do pão, após o circo, de todas as moças, e da moral do local. Todas hoje a procura de um autor.

Cresci ouvindo este chiste que tinha muito apelo de verdade: quando um cidadão do local, numa barganha ou favor perguntava ao outro: “E o que que eu ganho com isso?” O outro respondia de pronto: “Cê ganha o que a Luzia ganhou atrás da horta.” Esse quase provérbio ou gracejo vivia na boca do povo. Tanto que me fez sentir em casa numa certa feita:

Ao me mudar de Monte Sião, fui pro Guarujá. Tudo se configurava estranho, até entrar numa padaria, pedir um pingado e pão na chapa, daí, ouvindo o povo conversando, de repente ouço: “E o que que eu ganho com isso? Resposta imediata, em bom tom: “Ah, cê ganha o que a Luzia ganhou atrás da horta.” Ah! me senti em Monte Sião. Me aproximei, pedi licença, mas antes de perguntar algo sobre a frase, identifiquei quem havia dito, era gente dos Matias, lá dos Ferreirinhas! Daí o diálogo de nossa fala correu solto: lembra-se disso, daquilo, ô tempo hein, Matias! Ô paiero véio, hein, quem diria que ia aproximar a gente em tão longe lugar!

Hoje não há mais o paiero, a cidade está limpa de um local específico à devassidão; de escola e circo mundano e, claro, do chiste: “cê ganha o que a Luzia ganhou atrás da horta.” E nem precisa, porque o circo lascivo está hoje nas ruas, na praça, no posto de gasolina, na saída da cidade. Nem é preciso mais se esgueirar, a cidade tem é um céu aberto e estrelado, ar livre para as liberdades de qualquer um, isto é, a qualquer pessoa: homens, mulheres e tudo-junto-e-misturado, e todos estão bem escolados nas suas volúpias para montar seu próprio circo hedonista onde bem entender, em qualquer idade: inclui aqui o interior dos seus próprios lares, fazendo gosto e inveja ao hedonismo de Petrônio, no seu Satiricon. Então, mais que nunca, o paiero está na cidade, instalado, sem nenhuma necessidade de se esgueirar…

E o que qu’eu ganho com isso?, pergunta o Juca Andreta.

“Ah, ganhamos, todos, o que a Luzia ganhou atrás da horta!”, responde a própria crônica.

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