Os Caminhos de Cantare

Os Caminhos de Cantare

 

É de se preparar olhos e ouvidos. Imagine que uma banda está pronta para tocar no coreto da praça central de uma pequena cidade. Todo o repertório tradicional está ali para ser apresentado, porém, ao invés dos arranjos convencionais, o que se ouve é música aleatória, dodecafônica: é a desconstrução da antiga e a construção de uma música nova. Assim é a prosa de José Alaercio Zamuner, palmilhada em poesia, em seu universo Cantare.

Sim, Cantare é um lugar e um canto, é imaginário, existe, é um conjunto de vozes que se unem para contar estórias; causos de ontem, hoje e além nós.

Ao fundo e no centro de tudo está o Morro Pelado, totem, monte sagrado, guardião de todos os tempos de Cantare. Será necessário vê-lo de longe e de perto, subir e descer, percorrer o seu dorso, observar suas rugas para entender todo o traçado de Cantare.

Alaercio viveu por lá e soma sua voz a esse coro, organiza a partitura, põe em pauta a origem de tudo, a gênese de Cantare. Porque, no início, Prelúdio de nossa era, o tempo foi seqüestrado e, sem o tempo, esta matéria não se dá. É urgente que se resgate o tempo… Mas como fazê-lo? É necessário contar estórias. Somente as estórias podem nos estender em noites e dias e, assim, semanas e, assim, meses e, assim, anos, décadas, séculos, eras e eram muitas vezes. Foi assim que nasceu Cantare: em desafios.

Depois vieram os bichos para habitar a Terra, pois terra sem bichos é terra vazia de vida. E Cantare teve seus próprios bichos, filhos de ovídios e metamorfoses.

Terra, Água e Sol, que juntos moravam, tiveram de se separar para ocupar seus espaços. Desse jeito se contou na África. Do seu jeito, Alaercio nos conta aqui: o mundo e seu redor.

O Zezinho, como é conhecido nas Serras de Monte Sião e Águas de Lindoia, berço de Cantare, ou o Alá, como passou a ser chamado pelos amigos das cidades maiores, segue uma tradição e sabe que quem ouve um conto, quando o conta, aumenta, diminui, inventa, até o ponto de, como faz Alaercio, casar mitos distantes, miscigenar culturas e estórias. Afinal, é num espelho inca virado lago que Narciso verá sua face.

Eu é o outro. O outro sou eu. Desta forma, Alaercio torna estórias de caçadas, de pescarias, de Malasartes, lobisomens, sacis, de Zico Tropeiro em estórias suas e, de igual forma, transforma suas vivências, palavras e invencionices em estórias dos outros. Todos habitam Cantare.

Neste crear de Cantare, as palavras são livres, migram de um idioma para o outro, assumem novos sentidos, neologismam, ressurgem dos tempos das colheitas de grãos filipes (assim chamados porque nasciam grudados), e de outros tempos mais.

Em Cantare vivem todas as idades da Terra e todas as idades convivem. O homem vai à Lua, pisa o solo e, do chão de Cantare, um lobisomem uiva para ela e sonda outros satélites. É bom que assim seja: ciências, estórias e mitos dão-se as mãos, brincam de roda.

A infância de Cantare é inocente de bem e de mal. Alaercio bem a descreve porque sabe que, bem ou mal, nada foge à natureza do que é ser bicho e homem em um mesmo lugar.

A vida adulta chega: homens de bem e de mal, já que não é de se crer que o sertão seja só doce e não acre. Alaercio, de igual modo, tem o saber e o sabor dessas coisas.

Cantare cresceu – é o que se avista do cume do Morro Pelado –, virou cidade de prédios, antenas e fios, mas ainda cercada por matas, águas e entes de antes. Aconteceu que essa terra – assim como todo o planeta – correu o risco de se acabar por falta de encantamento; por falta de versos, modas e causos encantados que pudessem encantar a alma.

Foi por isso que o povo de Cantare resolveu abrir sua tulha inchada de estórias de há muito tempo guardadas e de agorinha mesmo também.

Alaercio, pesquisador que é, investigou livros reais guardados na tulha, pesados de conhecimentos antepassados, e fez a minestra com sua verdade de ser Zezinho, filho de Zico Tropeiro, pescando livros fantasiados, de nunca existir, para nos contar causos de Cantare, cidade surgida à sombra de uma grande serpente: o Morro Pelado.

“E pode misturar assim o real e o inventado?”

Em Cantare tudo é possível, tudo pode…

“Mas pode não poder também, não pode?”

Sim, pode e não pode porque, p’r’aquelas bandas, tudo é nada e nada é real.

Cantare é logo ali…

 

César Magalhães Borges

(janeiro de 2008)

Cantare Estórias e os PCNs: um estudo

A pluralidade cultural da obra Cantare Estórias

Indicação
Ensinos: Fundamental e Médio. Um estudo conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais.

Itens promovidos pela obra:
• Pluralidade cultural: valorização de culturas diferentes: letradas e iletradas, urbanas e rurais.
•Interdisciplinaridade: valorização das Ciências Naturais e Sociais: promoção de conhecimento de mitologia, da astronomia, de aspectos geográficos e fatos históricos.
•Recursos linguísticos da obra: valorização de efeitos estilísticos: usos de vocábulos de origem tupi, vocábulos arcaicos, recursos da lírica ao longo da narrativa, usos de recursos da língua oral no texto escrito, valorização da metalinguagem, valorização de jogos semânticos e neologismos.
•Cantigas populares: valorização de provérbios, parlendas, quadrinhas, cantiga de roda, aboios, desafios, jogos linguísticos (rimas rápidas) e romances em verso (gestas).
Diferentes gêneros:
• Narrativo: culto e sertanejo (causos)
• Lírico: poesia: culta e popular
Um recorte para ilustrar alguns recursos citados:
“Fui fazendo uns nós em cipós para entreter algum curupira, que me seguisse… – se diz: quando encontra um nó o ente-anhanga desenrola, desenrola e fica entretido… Um tronco-piúca: ybira-puera caído… orelha-de-diabo e orquídeas agarradas.”
(Uma Caçada de Onça, Cantare Estórias, pg
49)