Crônica do Bamburral: a Casizada entra na Copa, 2014

 

 

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Crônica do Paiero: o paiero está vivo

Crônica do Paiero: o paiero está vivo

 

“Cê ganha o que a Luzia ganhou atrás da horta!”, lembra-se disso?

Esta crônica transita entre o presente e o passado, entre o óbvio e o óbvio dos tempos, além, justifica para si seu fundamento atemporal que paira suspenso nos ares de qualquer lugar, das cidadezinhas às megalópoles: o paiero está vivo.

Assim sendo, sem tanta poesia, este enredo sai em busca daquelas vozes; hoje, soltas no vento pedindo cenas, atores e um autor para o chiste: “Cê ganha o que a Luzia ganhou atrás da horta!”

É de se lembrar o tempo de quando os prostíbulos tinham a função de escola e circo aos cidadãos, enquanto, é claro, as prostitutas, o ganha pão! Em Monte Sião, o lugar reservado às Damas ficava num alto (hoje, por perto do asilo, endereço de algumas moças daquela época), lugar de saída da cidade, meio nas grotas, dependurado em íngremes terras. As casinhas de sapé amontoadas, margeando a estradinha, lugar meio escondido, sendo por isso dificultoso um ver o outro um da cidade que pra lá subia esgueirando-se, até em pontas de pés, se enfiando por entre um labirinto perigoso de palha na busca (escolas, para muitos) de circo, muito dengo, cafunés, mãos, dedos libidinosos, escorrendo corpo abaixo, e apertos, beijos penetrantes sem um qualquer pudor, porque naquele sapezeiro (ou paiero) o homem se formava inteiro, ali se vivia lascivo e esgarçado das regras, nos limites daqueles momentos nas mãos de Laza Paca, Pomba Loca, Chica Cusaruim, Dita Careaçu, Lora-de-Pouso-Alegre, e linhagem de Luzias… Vale registrar que a Dama das Damas era a Luziona. Ela cuidava do pão, após o circo, de todas as moças, e da moral do local. Todas hoje a procura de um autor.

Cresci ouvindo este chiste que tinha muito apelo de verdade: quando um cidadão do local, numa barganha ou favor perguntava ao outro: “E o que que eu ganho com isso?” O outro respondia de pronto: “Cê ganha o que a Luzia ganhou atrás da horta.” Esse quase provérbio ou gracejo vivia na boca do povo. Tanto que me fez sentir em casa numa certa feita:

Ao me mudar de Monte Sião, fui pro Guarujá. Tudo se configurava estranho, até entrar numa padaria, pedir um pingado e pão na chapa, daí, ouvindo o povo conversando, de repente ouço: “E o que que eu ganho com isso? Resposta imediata, em bom tom: “Ah, cê ganha o que a Luzia ganhou atrás da horta.” Ah! me senti em Monte Sião. Me aproximei, pedi licença, mas antes de perguntar algo sobre a frase, identifiquei quem havia dito, era gente dos Matias, lá dos Ferreirinhas! Daí o diálogo de nossa fala correu solto: lembra-se disso, daquilo, ô tempo hein, Matias! Ô paiero véio, hein, quem diria que ia aproximar a gente em tão longe lugar!

Hoje não há mais o paiero, a cidade está limpa de um local específico à devassidão; de escola e circo mundano e, claro, do chiste: “cê ganha o que a Luzia ganhou atrás da horta.” E nem precisa, porque o circo lascivo está hoje nas ruas, na praça, no posto de gasolina, na saída da cidade. Nem é preciso mais se esgueirar, a cidade tem é um céu aberto e estrelado, ar livre para as liberdades de qualquer um, isto é, a qualquer pessoa: homens, mulheres e tudo-junto-e-misturado, e todos estão bem escolados nas suas volúpias para montar seu próprio circo hedonista onde bem entender, em qualquer idade: inclui aqui o interior dos seus próprios lares, fazendo gosto e inveja ao hedonismo de Petrônio, no seu Satiricon. Então, mais que nunca, o paiero está na cidade, instalado, sem nenhuma necessidade de se esgueirar…

E o que qu’eu ganho com isso?, pergunta o Juca Andreta.

“Ah, ganhamos, todos, o que a Luzia ganhou atrás da horta!”, responde a própria crônica.

Crônica do Morro do Macaco: o ar é massa movediça

Crônica do Morro do Macaco: o ar é massa movediça
Foi bastante assustador para o grupo do cronista Brancaleone a evolução deste relato, cujo propósito era só desvendar e instantaneamente relatar o que acontecia no Morro do Macaco.
De muito tempo o povo sabia que lá havia ar, depois terra e lá embaixo a água do corguinho correndo, e árvores de vários verdes cobrindo tudo. Assim de longe é o que se podia ver nas vistas de qualquer um. Mas, dizem, as entranhas deste morro vêm vivas desde quando nem era lugar de um nome, quando nesse tempo era tudo só o que era, esbanjando o orgulho de só ser. Com últimos acontecimentos estrambólicos, digo, ventos espessos e visíveis luzes arco-íris, parece que as coisas agora querem mudar, re-voltar para o que sempre fora de só ser nos princípios dos cafundós dos tempos; antes de Judas.
Tá complicado? Este relato de crônica quase põe tudo a pratos limpos, é que pratos faltaram para transformar aqueles eventos em fatos.
Um: Autoridades decretaram ordens para investigação. Chamar quem, gente escolada pra isso de acontecimento? Ah! pode ser essa gente desocupada que vive nos bares em pleno dia de trabalho, porque o restante de nosso povo, trabalhadores sim senhor, tavam era lapidando seus perfis de gente, muito ocupados com negócios, com suas máquinas tricolândias, com seus comércios e gráficos, arrancando os cabelos por conta da mercadoria chinesa instalada nas redondezas, perda de clientes, lojas no clamor de falência e muitos outros eteceteras que não cabem aqui. Deste jeito, decisão de mandados das autoridades para só convocar casta de desocupados: um tal cronista Brancaleone, mais andantes, biscateiros, cachaceiros, mentirosos, jogadores de truco na urgência de seguir aquele pulsar intermitente de luzes que tomava todo o Morro do Macaco naquelas noites inteirinhas, e mais ainda nesta quaresma, o que perturbava muito o povo.
Dois: Então, grupo Brancaleone formado, era a sexta-feira que antecede o domingo de ramos, todos na escadaria da Matriz prontos pra saída, nenhum familiar de nenhum deles por ali… parcas ferramentas: facão sego de seu corte, lápis de pedreiro, bloco de papel, nem nada para fotos havia, e assim marchou o grupo rumo ao pulsar de luzes que aparecia toda noite. Nada a perder, eram só desocupados nesta tarefa. Saíram subindo a mata estranha de tão fechada de galhos cruzados cruzando dedos dos ramos, o que se pode ler, hoje, nestes garranchos, as folhas sombreando tudo em túnel por debaixo tapando o sol e trilhas. Um; o Zé Cutuba, fez corte de facão num galho sassafrás; voz, sangue e cheiro no ar: Aaiii! O Brais, que isso? So eu não sô! Do nada formou imagem de uma jaguatirica, assim, sinal de vento opaco nas folhas, o ar espesso se mexendo, e o animal bem devagar aparece… frente aos desbravadores, lascou pergunta de uma aérea voz sonolenta: o que é, o que é: tem cabeça mas não pensa, quer ser mas não é? Num sei não, sô, disse o Dito-boca-torta. Quando voltou olhar, o animal virou maça de ar espessa nas folhas balançando, acho que era escuro, e luzes saindo por entre poros da terra, dava pra ver filetes arco-íris subindo: escreve esse trem aí, o Brancaleone!, alguém disse. Tô anotando, uai!, mas tem muita coisa vindo, tudo atrapalhado nestes galhos contorcidos de agarrar gentes num passo de minuto e viu-se visão de muitas cores subindo filetes de formar redoma pulsante no ar das copas das árvores… (‘pera, ‘pera aí, tô anotando!). Um saá desce, anda nos dois pés, passos largos: Seus tonto, seus tonto, neste ar aqui, cheio de luzes, é pensar que tudo torna forma nas vistas… Ar espesso movendo folhas, a jaguatirica se fez corpo, mas bem devagar, começando pela cabeça até o final do rabo. Mais bichos chegando… Bicho, não!, escreve direito aí, sô, seres de prazeres; que um tatu brotou de sua toca já falando. Do lado esquerdo, havia um canário estralando de contente, chamando todos os seres da mata para o tribunal ao pé do fogo arco-íris serpente saindo dos poros da terra. Pluc, pula vida quati: você, você gosta de tudo que tem ou tudo que tem você gosta? Você pensa em tudo que fala ou fala tudo que pensa? Ummm, pois aqui um fala tudo que pensa! E escreva aí, seu tonto. Vai, sobe nesta copa de pariparoba e faz o som da voz…
Três: Ainda bem que companheiro de cachaceiro é cachaça, o Cou Cusaruim pensou assim e já deu uma golada braba da Moreninha, Ôô caninha!!, passou pro Biju, outra golada, rodou pro Negão-Sordado, mais goladas de outros Bracaleones em tempo de minuto seus miolos bamboleavam bambolê na cabeça de pulsar cores Arco-íris, agora sim!…, sobem o morro um tanto de gente lá da vila dos pés juntos… andando, pedaços de roupa dependurados, tortos, eretos, carne putrefata caindo dos ossos, mas sem cheiro nas caveiras.
Vai, cronista, escreve isso tudo aí! Não dá, tudo muito rápido e fugido, aparece desaparecendo neste papel acabando. Pense! Pense!… O lápis escorregou numa lâmina com o balanço espesso do ar, mais cenas brotam…
Quatro: Blem-blem, blem-blem…, mas antes, naquela madrugada, os mortos bem acomodados em suas campas, blem-blem… porque era Domingo de Ramos, e alguém lá na igreja ligou o som digital de um pen-drive para essas badaladas do sino. Ainda, veio o quati e lascou a pergunta: Você gosta do que tem ou tem o que você gosta?
Cinco: Última visagem. Estranha luz de arco-íris dissipando, entes sumindo, ar espesso subindo, junto, clarão de um dia de sol tomando conta, tudo isso após as badaladas do pen-drive da Matriz anunciando que era domingo de Ramos.
Mas, você gosta de tudo que tem ou tem tudo que você gosta? – insiste o coelho de Alice, que não tinha entrado na crônica.
J.A.Z.

Crônica do Morro Pelado: ondas gravitacionais no céu

Crônica do Morro Pelado: ondas gravitacionais no céu

José Alaercio Zamuner

Cientistas detectaram ondas gravitacionais que passam voando pelo cosmos vindas de bilhão de anos-luz, vêm varrendo o céu por entre galáxias, estrelas, atropelam quasares, fuçam planetas, fuçam lugarejos desequilibrados e deixam um rastro de zunidos por onde passam, nada escapa, e tudo de crônica fica armazenado em arquivos magnéticos no seu interior, e vão indo simbora por este mundão afora de meu Deus. Não adianta pedir atenuantes, esconder-se, maquiar o malfeito. Inclementes, os zunidos capturam imagens: nobres ou pífias, e denunciam suas verdadeiras qualidades emitindo diferentes zumbidos. Os cientistas dizem que essas ondas cósmicas podem ser as guardiãs do universo, devem de ser; não, são as guardiães, mas não falsos guardiões como os nossos, nos exemplos destes governos de palanque, apoiados por Vale do Rio Doce, saqueadores de Merenda Escolar, do erário público: ditos donos de um rincão à revelia.

Outro fato que merece notícia neste relato, verdadeiro, ocular, é que um alvoroço entre os poetas e violeiros de Cantare vem acontecendo nestes últimos meses. A razão, bem local, nada de anos-luz, foi que essa gente nefelibata, de cuca-fresca mesmo, constatou uma cratera: erosão enorme no dorso do Morro Pelado, a gente podia sentir um gemer de dor quando nos dias de sol arregalado, porque a ferida abria-se mais exposta para quem trafega frente à Fazenda Arco-Íris, passando pelo Satirada, os Boavas. Dali, dá pra ver direitinho esta mancha viva em forma de uma nesga de sangue correndo desfiladeiro abaixo, sangue jorrando o visível que desce e atinge nossos poetas e violeiros de imaginação cósmica, e não suportando tal cenário de sangue, dor e quase gemidos, saíram gritando, cantando e tocando suas violas, sanfonas, flautas, clamando aos céus que venham todos os Deuses do cosmos inteiro e de lá de debaixo das placas tectônicas, de lá do fundo das cavernas do nosso Morro Pelado… cantando cantavam Cora Coralina, Quaia, Zé Paulo, Toninho Guireli, Popo, Ivan, João Gibão, violas enluaradas de Jonas e Diego: Pascoal Andreta!… Venham, venham céus, Deuses de qualquer canto do cosmos, que gente nefasta sangra o nosso sagrado Morro Pelado, sangra o sangue que desce um vermelho viscoso correndo ladeira abaixo, chega nas casa, entope suas cavernas, assustam seus entes moradores: a mãe do ouro, a mula sem cabeça, o curupira, o saci, as naves espaciais: o túnel que vai dar lá em Machu Picchu, todos coagulados pelo sangue desta brutal nesga erosão! Venham Deuses deste nosso cosmos, socorro!… o nosso Morro Pelado está sangrando, sangrando, sang!…

É o que este relato traz de pura verdade, nada de fantasia, porque uma crônica relata sempre o real frente às vistas do cronista. Então, por estes dias foi o que qualquer um ouvia, e causou muita comoção e espanto aos moradores de Cantare. O que vale é que o canto dos nossos poetas zumbiu aos céus, ficou pairado zunindo que nem em enxame de abelha: sangue jorrando, canto cantando majestoso, firme, não se diferenciava voz dos poetas de sons dos instrumentos, tudo num uníssono zumbindo-tudo num uníssono zunindo, zunindo nuvens no topo do Morro Pelado, que dava pra ver uma enorme onda de ar vibrando zu-zu-zuumbidos de vozes poéticas zunindo clamor para que aquele sangue descendo fosse estancado. Nada de cura ainda. Olhando lá do Tonico Satiro, a ferida viva escorre seu tanto de sangue. Mas, mais viva está a força dos poetas cantando e tocando sem parar. Foi tanta força gravitacional por tanto tempo que a onda de cantos-zumbidos subiu vertical além acima de tudo quanto é céu de Cantare. Subiu sumindo, mas deixou sinais de ondas em forma de nuvens de um roxo meio esverdeado cobrindo o dorso do Morro… Os poetas permaneceram onde estavam, observando, zumbindo canto adágio.

Dias passando e os poetas não arredando pé do Satirada, a nesga de sangue lá, bem visível pra qualquer um ver, da mesma forma o círculo de nuvens formado pelos cantos dos poetas… De repente aparecem as ondas gravitacionais, anunciadas pelos cientistas, vinham em Cavalaria de Carlos Magno galopando pela tábua gelatinosa do espaço-tempo num zuum-zuum-zumbido… gravitando vórtice violento que cobriu o topo e o Morro inteirinho, qualquer um de Cantare se apavorou, pergunte pro Luiz d’Isaías, porque o dia virou tremenda noite, toda força do universo pairava ali, na soma com os poetas vibrando intenso canto maior. Três dias foi o que durou isso, vozes e ondas cósmicas, zum-zumbindo zunidos…

O escuro daqueles dias sustentou um temporal de raios, trovões e tromba d’água, quase que as águas escalaram aquelas encostas das terras d’Leta. Quando amanheceu, tudo estava claro de anil, o topo do Morro Pelado limpo de toda tranqueira sombria, tinha que ver!: antenas, radares, bases de asa delta, estacionamento para casais libidinosos, motéis, hotéis dependurados em suas grotas; a nesga de sangue… tudo limpo, tudo varrido e carregado pelas ondas gravitacionais para…, dizem nossos poetas, vão despejar no próximo buraco negro nos confins do universo, onde tudo vira luz novamente, pois estas ondas, pode acreditar!, são mesmo as guardiãs da vida no cosmos, guardiãs de bilhões anos que sempre limpa todo o mal deste imenso palco cósmico em que vivemos:

E desde sempre é o que os poetas gostam de dizer, e disseram: tudo fica bem quando tudo acaba bem!

Crônica do Paiol Barreado: novos tempos

Crônica do Paiol Barreado: novos tempos

José Alaercio Zamuner

A família vai deixando a Batinga, a fazenda fechou-lhes as portas de seca que estavam as roças, as esperanças, restando somente pai e filhos e uma estrada longa pro ano que se iniciaria, até o pé do Morro Pelado, onde tudo em volta, se dizia, pedindo lavoura, pedindo enxada, pedindo alimento. Os braços do pai; pedindo labuta. Os olhos; pedindo horizonte depois de tanto infortúnio. Mas um roceiro nunca se espanta, porque sabe que a vida sempre renasce de um recomeço vigoroso na bruta força das próprias cinzas, tal e qual um capim após a queimada.

Os fogos de rojão explodiram aquele céu de ano velho e brilharam os dias vindouros, as crianças alheias a tudo e como sempre brincam, os cachorros uivam com suas dores nos ouvidos das explosões do novo dia, das novas horas que puxam, decerto, as novas esperanças de um renascer alimento em um grande paiol de madeira de lei para as colheitas que virão: as cabras, as porquinhas, as vaquinhas, todas prenhes de novos dias, o pai olhando o todo em volta, capim crescendo com as grandes chuvas: da fina, da grossa para lavrar os ares…, tudo certo, tudo de ontem pra trás, na força do tempo que não para na curva esperando ninguém, segue reto pra frente que detrás vem vindo muito mais gente, então, reze pra este ano que há de ser bom, muito bom, filhos. O carpinteiro Joanim Geciani já é vem aí cortar só madeira pereira que dura o durável dos anos na construção do grande paiol que as colheitas deste e sempre ano novo há de vir, olhe, aí vem o Mingo Deseró preparar a parreira de uva, vem também o Nenê tropeiro com os laminados de café, vem aí o Satiro com o arado e arar toda a terra, o Dito Tropeiro faz os jacás para as colheitas, o sanfoneiro, ô!… sanfoneiro Bazzani, traz o sempre melodioso ritmo dos trabalhos em construção: da serra-serra madeira serrando, dos martelos bate que batendo os pregos, dos bezerros chamando mamãe, de todo canto do povo e dos bichos. Vem aí…

Amanhecer, e amanheceu lindo dia após semanas de intensas chuvas, graças a Deus… E os homens num vai-e-vem de levantar o paiol, madeira cortada, esteios, vigas, tesouras aéreas, caibros, rolos de sapé subindo à cobertura, taquara traçando as suas paredes de receber o barro, o barro que as crianças e moças e moços pisam com fortes e saudáveis pés água e terra e palha na mistura de fazer grandes bolas de argila, depois cada qual de seu lado, ao mesmo tempo, bate batendo nas tranças de madeira e taquara, que o paiol quer escalar aquele céu sagrado e receber todo o mantimento, vamos!…, suprir os seres que têm fome, fome de vida, fome de bom tempo, fome de bom ano. Pronto! Mas antes, mestre Joanim ensinou que carecia barrear tudo com batinga, deixar branquinho, que é a cor de um lugar que guarda vida, luz e ano bom. Então juntou o povo das vizinhanças: mulheres, crianças, homens e foram buscar batinga, tabatinga, que tinha lá longe na própria Batinga de Baixo, juntas de bois, tropa de burros, homens, todos trazendo o barro branco, a tabatinga. Passaram dois dias trazendo o barro branco, dois dias barroteando o paiol, e tudo ficou branco de pronto, agora sim, e o Paiol ergueu-se espantoso do meio daqueles morros, despontou pulsando linda luz, como fogos dos rojões, para aquele ano que começava esperança de guardar todo o alimento do mundo: pros homens e pros bichinhos. Mestre Joanim subiu no eitão de sua obra e gritou: este é o melhor Paiol Barreado do mundo!

O pai, orgulhoso e agradecido da obra assim ordenou:

– Venha, meu povo, vamos cear agora à beira deste Paiol Barreado, que traz luz

de alimento a todos!

O ano novo havia começado.

 

 

 

 

 

 

Crônica dos Lima: os Sibirinos e o tempo

Crônica dos Lima: os Sibirinos e o tempo

José Alaercio Zamuner

Esta crônica ocorre lá nos Lima: lugar e tempo quase escapando de Monte Sião.

A família foi chegando na casa do curandeiro Sibirino, filho da Dona Sibila dos tempos antigos, de tão antigos que ninguém não consegue falar mais desta linhagem de gente, pois o próprio Sibirino de hoje é um espectro de acumulados anos, por isso figura um tanto estranho ao povo, que o respeita, teme e pouco dirigi-lhe a palavra, só mesmo chega em sua frente e pergunta o bastável, depois deixa o filho destes tempos antigos falar. E sua fala soa como a de um bruxo.

Foi o ocorrido que esta crônica relata pra todos conhecerem as forças que existem escondidas no ar e regendo cada um de nós, e não podemos ver, só este Sibirino velho e filho herdeiro dos tempos dos Sibirin­­ada de Monte Sião. Observe que a família continua chegando, pai, mãe e uma filha, esta, beirando seus quinze anos, trazida segura pela mão, que andava com pálida força, quase sem nada nos ossos, quase carregada pelos pais; que iam chegando para perguntar-lhe sobre o destino da menina… É fim de ano!

Chegando estavam… e lá na outra extremidade do terreiro, sentado num cepo, Sibirino segurava com as mãos, uma em cada extremidade, um gomo de bambu, levantava-o ao nível dos seus olhos, ao nível do céu, ao nível do tempo, olhava, olhava seu aparelho todo perfurado como uma flauta, e pelos seus furos transpassa luz dos raios do sol de um fim de dezembro de 2015. Pelos mesmos furos seu olhar ganhava os ares do céu. A família já em sua volta, mas o filho de Dona Sibila ainda olhando firme o céu por entre seu bambu-caleidoscópio, nada de resposta, quieto ele estava, ­olhando firme… De repente, um sinal com­­­ a mão direita, pede atenção, como se estivesse frente a um público de mil pessoas. Silêncio!… “São recados do tempo”.

Silêncio!…

– O que que ela tem, senhor dos tempos?

A menina Jéssica foi ficando fraca, pálida que nem comer, beber; nem correr e brincar pode mais, anda perdendo toda força de seu corpo, sua pele, senhor, aqui no pescoço, puxou pro roxo que desce devagar, a cada dia, pro resto do corpo… Silêncio!…

Vem fala flácida da menina:

Pai, fala pra ele que todo dia desce uma forte mão em meu corpo, me empurra pro chão, sinto pressão e peso nos meus pés, esta mão aperta muito, faz ferida, pai. Pai, pede pra ele tirar a força desta mão vindo agora em mim que enferruja minha carne. Pai, dói muito a força desta mão, pede remédio, pai!

O Sibirino tirou os olhos do gomo de bambu, olhou fixo pros consulentes, olhos alaranjados que mais pareciam dois sóis em crepúsculo, e pronunciou:

…que a menina Jéssica pegou o mal do tempo, e ele anuncia, aqui, que pele e carne da menina ou de outros tantos lhe fazem muito bem, renovam suas forças, a cada ano ele precisa de mais matéria. Não se pode ver nada de cura nestes espectros de luz, somente sua força, que ofusca. Pode tapear o tempo um pouco, porém é muito melindroso, anda extremo nos disfarces de antigo e jovem, mas o certo mesmo é que o tempo eterna sempre novo, novinho, forte e vigoroso de tanto consumir suas criaturas todas, aprendi isso com minha mãe Sibila: o tempo, minha filha, gasta a gente, cria e corrói, cria e mata, o aço vira pó na poderosa mão do tempo. Nada é inoxidável aos seus filhos com os anos que passam. O tempo é uma máquina de bajular e enganar, produzir júbilo e mágoa! Nunca ninguém está novo pra ele, só ele, minha filha, anda sempre igual: volátil e vigoroso, mais além, sempre na flor da idade por milênios afora… Mas vou passar remédio para tapeá-lo um pouco até que descubra essa nossa conversa: tome banho e beberagem de: arruda, losna, funcho, sete-sangria, sal grosso, chapéu-de-couro, olho-de-boi, rezas, cruzes, promessas, romarias, Santos poderosos, Orixás: pede clemência ao velho Omulu, que varra suas chagas!!… Tome, pode aliviar o peso do tempo nas suas feridas.

A família ouviu muito bem o recado do Sibirino, foi saindo num vagar cuidadoso, sem bulha para não despertar o tempo que descia mais um dia lá pra banda do Grotão, lançando um vermelhidão meio sangue no céu. Segue a família quieta, sem alarde nem coragem nos passos palmilhados naquele chão de só pedregulho, que não evitava em emitir um ruído surdo e chocho, o horizonte seguia tingido de vermelhidão, agora caindo pro negro. E aquele dia ia acabar, por certo, em noite naqueles céus dos Lima. Até parece que engolido pelas cavernas do Morro Pelado.

Mas quase já pisando no pedregulho da estradinha, pôde-se ouvir do velho Sibirino:

Um feliz 2016 a todos, meus filhos!

Crônica da Guardinha: o mistério do Ipê Amarelo

Crônica da Guardinha: o mistério do Ipê Amarelo
José Alaercio Zamuner
Neste ano de 2015, bem quando chegou agosto, um Pé de Ipê amarelo abre suas flores em redoma lá da Guardinha, de roubar todos os olhares, e vai espalhando até Bueno Brandão, Socorro, vorteando por Lindoia, Águas, Itapira, Jacutinga, Ouro Fino… nenhum ninguém escapando da curva geodésica indo unindo todos os olhares dos mais de mil poetas colibris, beija-flores, cuitelinhos, sebinhos, fifis, tiês, saíras, bilhians abelhinhas de todas as criaturinhas. Flores e mais flores cobrindo a Guardinha inteira e adjacência. Árvore antiga esta, subindo alto ao céu, mas que só agora chovendo mistério dessa forma…
…Não, não, narrador desta crônica, não é de agora, não, é de há muito tempo, irrompeu um imprevisto de meninazinha com lições firmes e brava nos olhares indignados a um público atônito no hall da igreja, após a celebração. A reza era para sarar o espanto do povo todo e livrá-los do encanto daquele Pé de Ipê e seus visitantes de bichinhos e gente poeta ignotos que vinham aos montes em romarias à Guardinha. Este Ipê vem comigo desde tempos do Pelegrino Tortelli, pare e repare e deixe o tempo existir solto só por si em êxtase, é feitiço nenhum, não, povo, só encanto suave de durável instante… vem, deite-se folgado aqui…
neste relvado ao Pé do Ipê Florido, olhe quanta vida em flor primor, sinta a dança das pétalas no ar encantando os bichinhos todos, repare no por trás das coisas neste toldo amarelo de cada flor e cheiro, vá nos olhares pro céu azul de tons mesclantes, perceba cada mínimo inseto chegando, olhe lá as abelhinhas e quantas mil minúsculas mandaçainhas e tipos infinitos de bicos colibris recitando voo para uma chuva de pólen e pétalas amarelas descendo cobertor, forrando nossas almas estendidas neste relvado, deixe, deixe todas descerem mel para as todas alegrias elevarem com os bichinhos num canto uníssono a este Ipê Florido da Guardinha. Recite:

Ipê Florido

Floriu Ipê bem uno!!…
Acordou meu olhar,
Voltar lá para donde
Campos de memorar:

São buquês deste Ipê,
Com mil-flor beija-flor:
Laços lagos: espelhos…
Destes olhos primor.

Vaguei por crua vida.
Mares, montes cruzei.
Não vi Ipê tão florido
Des’ que em ti avistei.

Meu riso é dos Tiés,
Nestes galhos Ipês…
Zumbindo bato asas,
Pairo pasmo em brasas…

Quem dera vida inteira,
Cintilar nestes cachos:
Olhos-flor; bicos-co-
Libris: sorver-lhe a seiva

Por muito além das eras!…
Pois este Ipê florido
Traz vida, chão à vera…
Pelos tempos ungidos.

Num instante, todos estavam em sonho profundo, deitados e entrelaçados nos dedos e mãos e céu e relvado e ao Pé do Ipê florido. Horas passando até quando despertaram e já tinham de voltar pra suas casas, após alguns dias e noites. O mistério de meninazinha havia sumido, rápido como aparecem e somem aquelas flores e pétalas e pólen. E agora, após a lição, restava ao povo aguardar ansiosos a próxima florada do Pé de Ipê amarelo da Guardinha.