Nos tempos em que Sol morava na terra

“Há muitos anos o sol e a água eram grandes
amigos e ambos viviam sôbre a terra.”
(Por que o Sol e a Lua Vivem no Céu)
Maravilhas do Conto Africano – Cultrix, 1964

Nos tempos em que Sol morava na terra, o mundo era por demais diversificado. Viventes de hoje podem não acreditar, mas as crônicas de então contam que árvores, pedras, rios, pássaros e bichos falavam e tinham sentimentos, viviam misturados no mesmo modo de vida dos homens. Aliás, tudo eram seres falantes, com dores, alegrias e paixões. Prova disso é que houve um caso de amor de paixão entre uma cobra esguia (linda cipó verde) e um porco espinho, garboso. Casaram-se para gerar mesmo filhos da linhagem de só cipó amora-brava que agarra. Hoje, porém, restam-nos ensinamentos e restolhos do modo que eram aqueles dias, narrando que tudo em nossa volta já foi existido em outras formas, nos antanhos, semelhantes à vida de hoje.
Naquele tempo de experimento, tudo começo, Sol e família moravam na terra. Tudo era muito pertinho e de mútuos cuidados e prosas. Em tempos e tempos, radiante, Sol pegava mulher, Selene, a linhagem de filhos e iam em visita baixa Água que morava ali por perto, nas Fontes. Chegando, palmas de prosas e boas vindas de entrem, mas cuidado com os pés, que imenso mar de casa, Água! E era fria. E Sol, como hoje, fervente, de tostar, não podia deixar que Água nenhuma tocasse seus pés. Muito ruim assim!… Então, Sol e Água queimaram pestanas em tudo de invenções, quando num repente aquoso, uma cerca de água-viva ergue-se de poder receber Sol e gente parente. Assim, naquelas vezes dos antanhos, visitantes de um lado, protegidos pela cerca água-viva (porque, se Água que fosse e tocasse nos pés de Sol, ouvia-se imediatamente: xxxxiiiiiiii, e uma fumacinha que subia…), e Água de outro, pulsavam brilhos e xooavam risos tralalalando.
Mas foi depois de tantas visitas amigas que Sol pronunciou por seu turno:
– Por que não me paga visita, Água? Só eu, eu venho sempre em correntes contínuas visitas!
Veio justificativa aquosa:
– Veja como é açude em mar de enorme minha casa. Nem posso visitar ninguém, Sol, de tantos filhos, olhe só.
Sol e Selene olharam em volta, tudo era imenso, aquele mundão de Água espalhando-se por todos os lugares. Foi aí que uma resposta heliocêntrica radiou naquele ar de só Água.
– Pois posso fabricar casa, assim, enorme, no gosto de receber todos deste açude.
– Pois muito irei no prazer de só balança onda de alegre riso e mar afora me espalhando enchente…
E se foram, pai Sol, mãe Lua (Selene) e filhos todos, agarradinhos aos dois, como sempre existiam.
Tempos passando entremeio caminhos claros e escuros e pingos de estrelas no céu, até que se completou a tarefa, e imediatamente Sol ardeu em vibrante notícia de tudo pronto, e pode me visitar, Água, por estes tempos de urdir tantas prosas.
Numa brilhante vez, Água bate ao portal Solar, que raiando, abre-se em janela… olha: cabelo todo amarelinho em fogo… foi aí que Água exclamou, perguntando: “Venho na visita, Sol, posso entrar!?”. Sol grita em pulso de viva vida: “Selene, filhos, imaginem quem de visitar esta morada radiante!”. E Água espera que esperando euforia passar, se acumula alagada do lado de fora. Quando Sol volta-se a ela, esta insiste: “Posso entrar, posso entrar?”. E Sol, abrindo seu portal, responde radiante.
– Pode!!…
Nisso, era Água rolando cas’adentro tralalando assim: xóóóóóó!…
– Agradecida!…
Vai então que Sol se lembrou que não podia pisar molhando pés, e corre, correu, pegou filhos, Selene e pulou sobre a mesa. E Água e mais Água liqui-entrando, entrando, marcando a perna da mesa, fluindo que nem enchente. Chegando à altura de cobrir toalha… e pergunta: “Posso entrar, Sol?”. E Sol raiou santa ordem.
– Pode!…
A mesa cobriu-se de Água. Sol pulou para os caibros da casa, Água entrando, Sol e família dependurados, Água subindo intenção de lavar pés. Novamente ouve-se a pergunta amiga: “Posso entrar?”. O que se ouve flamejando ar.
– Pode!!…
Mas antes de tocar pés aflitos, astro e família voam para a cumeeira da casa. Esperaram. Esperaram. Eis que, de lá embaixo, pelo buraquinho da telha, subindo enchente, vem apelo aqueu: “Posso entrar?!”.
Por ser gerador de tal convite, Sol sustenta a palavra de honra cósmica:
– Pode!!…
No que o telhado foi alagado. Mas antes de nada esfriar pés, bordas, saias e barras cabeleiras, Sol novamente pega a família e sai se indo para o topo daquela última montanha: Morro Pelado!… De lá viu tudo, até o fim e centro do mundo onde o céu desce à terra, cobrindo de Água. Era o dilúvio vindo! Vinha peixe de qualidade diversificada nadando: namorados: curimbatá, lambari mandou dizer que a piaba ’tá doente com saudade de você; perna de moça; que peixe bonito!…; pacu; jacaré – nadando de costas porque tinha também piranha; peixe galo, que canta para as manhãs alvoradas; cavalinha namorando cavalo marinho; boto feiticeiro se transformando em moços de só namorar e enfeitiçar moças beira rio; ypupiara nadando nas braçadas em cantos fortes, que assim se pode engravidar as moças; mas os moços que se cuidem!…; podem morrer de pasmo; umas outras formosas moças cantando com vozes doloridas de bonitas, nadando, corpo metade peixe, metade mulher encanto, de enfeitiçar odisseus de todos os mundos: Iara; e um enorme ente entre gente e sapo revolvendo águas daquele mar de açude, com sua carruagem de cavalos marinhos… Que mundão de maravilha!… Olhe lá, olhe outro aqui pertinho!… E maravilhado, esqueceu-se que Água vinha que vinha sobe montanha. Quando volta a si, bem ali é-vêm centímetros líquidos de molhar pés de Hélio flamejante. Vai daí que Sol ouve a pergunta novamente: “Posso entrar?”. Uma radiação vibra no ar do alto Morro.
– Pooodeeee!!…
Imediatamente um movimento de Água lençol se lançou enxurrada num som alegre, tralalando, assim: xxxóóóóóó!…
– Agradecida!…
E pronto, cobriu-se terra inteira, dilúvio consumado tudo em só Água.
Mas Sol, sabendo de suas condições, que bem leve era, de Hélio puro balão, pula para o ar espaço e vai voando s’embora, lá pra cima, fundós dos cafundós do céu adentro, céu acima, chamando a família, céu adiante, invernada espalhante afora de ninguém se ver mais…
Foi nesta vez que se viu num mundo de só espaço solto: Sol ficou num canto do Cosmos. Filhos, Selene, perambulando desgarrados, um não via nem sabia do outro. Sozinho, Sol começou a chamá-los: “Selene!… Júpiter!… Netuno!… Mercúrio!…” que assim se chamavam. Um respondia daqui, outro de lá, outro bem mais do que acolá: como nunca tem que ser… Conta-se que foi um desatino aquilo: uma família sem gente ao redor…
Bom, encurtando a estória, Sol, que ainda hoje tem uns braços muito compridos, foi esticando braços todos pelo Cosmos e pegando cada um de sua família e pondo a sua volta, nos lugares de bem merecimento: o menor, Mercúrio, bem por ali, a mulher, Selene, perto de um azul de tanta água em dilúvio, e assim por diante. Mas tudo ficou muito parado, monótono, sem movimento… Sol no centro, família a sua volta… e só. Não era como antigamente que dava para andar pra cá e pra lá e tudo avistar…
Vai senão quando Sol, inteligente e gerador de vivas idéias, do seu centro, com o indicador em movimento rotativo, começou a girar, girar, rodando pião de impulsionar sua família numa ciranda translacionada de muito alegre elipse, rodopiando a sua volta, volta que puxa outras sempre sem fim de voltas; agarradinhos, como sempre tem que ser: e isso perdura até hoje…
Lá embaixo, mundão de Água diluviando tudo. Sol, gerador de vivas idéias, para tudo tornar em seus lugares merecidos, foi se esquentando, esquentando fornalha, Água evaporando, recuando e voltando para os rios, mares, ares…
E tudo se ajeitou assim: hoje, Sol lá em cima no céu, e Água cá embaixo na terra, tornando sábias falas em mútuos cuidados para nunquinha nos jamais se terem xxxiiiiiiii!… e fumacinhas… causa que… bem desta forma muito se alegra: tudo lhe fica bem quando tudo termina bem!…
(de Cantare Estórias, 2008, ISBN 978-85-7615-226-2)

A Dança dos Tangarás

…Quem anda por estas roças, sobe o Morro Pelado pelas Sete Cachoeiras, vê-se muito bem, naquelas grotas, um passarinho estreme nas plumas e consoante canto de bailado mui gracioso…, mas guarda espanto, que até parecendo sabedoria de escola. Essa dança teatro se dá assim, cadenciada: grupo de uns sete passarinhos, com um Corifeu que fica no alto, e centro, os outros num redor circular, patamar mais abaixo. Aquele do centro solta chilreio chamando algazarra dos companheiros, que ouvem atentos, atentos… Quando o cantor mestre silencia, o corpo de baile inicia circo chil-chil-chilreando alegremente, sempre aos pares, em pares vivazes tril-tril-trilam, saltitando drama de galhos a ramos a galhos, vão assim cirandeando, cirandeando… e enchendo de viço a mata! Mais um pio do Corifeu: tri-ri-riiiiuu!… e volta-se o silêncio das duplas, que depois reiniciam novamente os mesmos passos bailados dos Tangarás, que são aves tão ricas de pluma azul negro, que brilha ao sol, com topetes amarelos ou vermelhos, tudo em cor vivo fogo.
Mas esses pássaros, assim cantam e bailam por causa de um castigo. De primeiro, eles não existiam nas florestas destes morros, foi de então, quando uma maldição muito ruim caiu sobre uma família. Um dia, eternos tempos atrás, numa Semana Santa, dias de penitência, como vocês sabem, uns moços, filhos do Chico Santo, lá da Assunção, subindo pelo morro do Cruzeiro, todos rompentes em muita só diversão de bailes e cantorias, pouca obediência, principal nas crenças, de nem nunca atender as recomendações do pai. E saíram procurar bailes; sabe que encontraram!… Conta o João Goulart que foi mesmo obra do dianho, que arrumou tal diversão de fandango e catira, lá pros morros do Brejal, terras do Edso Riso, bem numa Quinta-Feira-Santa! Mais do que sempre se sabe de ser essa Santa Semana que o diabo anda solto, pescando deslizes de desabusados. E passaram os moços do seu Chico Santo, desaforando crenças, no baile noite toda, dobrando pra madrugada de Sexta-Feira-Maió… Terminando só após os últimos cantos dos galos. E o que se sucedeu ao depois nem dá coragem de contar… Coisa triste, que só vendo!… Ao cabo de uma semana, cada filho pega a adoecer. Um por um amanhecendo bom e à tarde já desenvolvia doença feia: o primeiro foi de varicela; depois um outro foi de tifo; o mais novo morreu gemendo febre amarela, e assim até inteirar os sete filhos. A alta febre infernal tingia cada feição e cabelo de vermelho sangue pitanga, ou de um amarelo manga espada afiada e madura. Mas o caso não termina aí não… Assombroso é em que se tornava cada moço: na súbita hora dos tremores da morte com gritos horrendos, instantâneo repente se dava de, como em delírio vertigem, causa da enfermidade, se levantava, cada um; cabeça rubra de vermelha ou amarela e corpo todo de pele em penas brotantes num azul negro, e saía meio-gente-meio-pássaro terreiro, depois mato afora, sumido pelo desfiladeiro do Barreiro… De então, já se ouvia vendo chilreio dançante, tal-qual, nos redores de matas, deste passarinho que hoje chamamos de Tangará. Muitos dizem que estão esperando o perdão para assim retornarem à forma de gente novamente…
Sabe que corre estória diversa!… …que de tão sublime dança em cantos por estas matas, deverão ser sempre Tangará em Corpo de Baile, causa que na terra já tem muita gente, e sempre imitam tudo por puro prazer.
(de Cantare Estórias, 2008, ISBN 978-85-7615-226-2)