Verbos da Pinha

Eu parti a palavra ao meio

do pé pinheiro:

de bola fruta pinhão pulou

uma-uma toldo

em mosaico colorindo

fragmentos ao léu

após a explosão do pinho…

guarda-chuvou no céu: uma-uma

desceu pandora plen’em mim

molhou minh’alma de sons

e cores qu’em olhos vibravam

mil colores centrefugam

ao chão. Cata que cata

pinhas d’ex-bola pinhão:

sons aqui ali gritando uma-uma:

– “Me pegue!…” – “Me pegue!…”

– “Rasgue-me o véu!…”

– “Sou de Vênus!…” – “Sou de Apolo!…”

– “Sou trovador…”

– “Sou de vapor!…”

E cada qual em demanda

de verso vaporoso levita

cata que cata o impossível

instante…. Elfos (elas) sons

invisíveis levitam à copa-tropos

uma-um’ em bela bola fruta pinhão

no pé do pinheiro…

E cada qual em verbo retoma uno-verso

suspenso sempre em cantos: juntos

cantam aos Pinhos de sempres-junhos.

(de O Camaleão)

Ipê Florido

Floriu Ipê bem uno!!…

Acordou meu olhar,

Voltar lá para donde

Campos de memorar:

São buquês deste Ipê,

Com mil-flor beija-flor:

Laços lagos: espelhos…

Destes olhos primor.

Vaguei por crua vida.

Mares, montes cruzei.

Não vi Ipê tão florido

Des’ que em ti avistei.

Meu riso é dos Tiés,

Nestes galhos Ipês…

Zumbindo bato asas,

Pairo pasmo em brasas…

Quem dera vida inteira,

Cintilar nestes cachos:

Olhos, cores; bicos- co-

Libris: sorver tua seiva

Por muito além das eras!…

Pois este Ipê florido

Traz vida, chão à vera…

Pelos tempos ungidos.

                                 (de Cantare Estórias)

Estratosfera

Monto teu ventre

trafego entre

casas aladasssss…

Quase escapo!

Quo vadis?

No deserto com nuvens de poeira

Sua mente rodopia veloz

Os caminhos turvos, zumbindantes;

Faz espiral, gira em redemoinho,

Encontra no epicentro nuvens.

Dentro: diabos, hienas, vermes.

Não!… Gira em redemoinho

Seus anjos, os arcanjos em plumas.

No epicentro voam suaves.

Neste deserto… Que deserto?!

O sol no topo da montanha

Ilumina a campina: verde!…

Pastam ovelhas, renas em calmaria…

O sol radioativo no alto

Ilumina a romaria dos Pterossaurus,

                                                                       Ceto-ssaurus.

No epicentro do pântano!

Não! São os anjos em vôos

No céu aberto da supernova!

O sol: os pólos engoliram!…

Neste deserto… O sal virou açúcar.

Quo vadis?!

Reflexão: retas ou tortas?!…

A primeira vez

que proferi palavra

veio meio no meio

torta comum a retas/curvas

desvairadas das gentesin’

comum a pensar sem retas

de palavras tortas comum vida.

Tortas/retas com’um

desenho de rio na vida:

única reta

traço na vida: tortas ou retas?!…

… até o mar!!…

Elegia

Na rosa dos dragões
em embriões plasmados
morgados répteis
ágeis trafegariam
e rangeriam seus dentes:
à frente uma rã
verdade sã sábia mas atada
urra acuada e presa no berço
um terço a coaxar
devagar no lento lamento
do vento insano:
profano como ` mal
inventa um vau e a boca
sedenta e oca entoa
um canto à-toa
na proa dum barco
que roda em arco para Iris
no poder de Isis com mentes
e dentes suculentos: um oceano
formano mil razões
pra rosa vil dos dragões.

BEIJA-FLORAR

Beij-a-flor cintila átomos:
Gira vórtices de elétrons
Nos bicos ponti-agudos
Furando grãos quânticos
Bem visíveis na língua
Uma vulva-flor aberta em néctar:
– Tempo inerte!